sábado, 25 de março de 2017

PREVISIBILIDADES

Vendas Novas, 25 de Março de 2017

Samuel Langhorne Clemens, que se notabilizou com o nome literário de Mark Twain disse um dia que «é difícil prever: principalmente o futuro». No mesmo sentido, mas talvez sem a mesma intencionalidade, foi a frase que ficou famosa, de um jogador de futebol, de que «prognósticos só no fim do jogo»[1].

Assim é a vida, na sua quase absoluta imprevisibilidade. Mas o que é certo é que é precisamente nesta imprevisibilidade que reside o seu maior encanto e também, evidentemente, o maior perigo, porque se soubéssemos previamente que o barco ia ao fundo não embarcávamos. Esta imprevisibilidade, porém, não impede a nossa capacidade, seja por meios intuitivos, seja por meios racionais e pragmáticos, de estabelecer previsões gerais sobre o futuro (ou futuros) expectável.

É isto que leva a termos tantos futurólogos, inclusive de formação científica, a abusar da cadeira de Nostradamus, embora não se atrevam a ir tão longe, pois que o que dantes se podia prever para um século, não tem atrevido que o faça para uma década.

Quando Alvin Toffler publicou o seu famoso livro «A Terceira Vaga» – no Brasil foi chamado de «Terceira Onda» – generalizou os factos e os efeitos que se esperavam da era da comunicação, não tratou dos pormenores. Prever pormenores é desacreditar qualquer previsão.

Todos nós podemos ter a nefasta expectativa, que não necessita de previsão, da própria morte, de que afinal não temos qualquer experiência, e assim, porque não temos experiência, não sabemos como se vai dar. Quem julga amargamente prever a própria morte são os suicidas, mas falham muitas vezes: o veneno não sortiu efeito, a corda partiu-se, o combóio não passou.

Os apaixonados pelo Nostradamus adoram dizer que ele previu isto e aquilo, mas é pena que nos não digam antes de acontecerem as tais coisas que à força querem encachar num qualquer versículo das «Centúrias». Chegam até a chamar profecias aos vaticínios, quando sabem que os profetas não fazem vaticínios, falam de fé e dos segredos que Deus lhes confiou em exclusivo…

Nostradamus trabalhava sobre o que se costuma designar por ciclos pregressos, que é dividir os acontecimentos históricos em períodos geracionais, que se repetem, não a papel químico, mas em semelhanças e características susceptíveis de projecção no futuro. A razão e a intuição fazem o resto.

O maior problema de quem se instala como futurólogo é o condicionamento próprio, de acordo com o olhar a que se habituou para desenhar o presente. Grosso modo, o seu olhar pode ser francamente optimista ou indisfarçavelmente pessimista, ou até sadomasoquista, que é uma espécie de esperança de que tudo corra mal.

Este relambório todo, que alguns acharão excessivo, vem a propósito de uma modernidade de futurólogos assente na designação de singularidade tecnológica – expressão inventada pelo matemático Vernor Vinge – que tem como mais destacado expert Ray Kurzweil, um eminente investigador na área da inteligência artificial, o qual podemos classificar de optimista, já que vaticina um mundo pleno de maravilhas tecnológicas, onde evoluiremos de tal ordem que chegaremos a tornar preponderante o mundo virtual, ao contrário de outros que nos querem assustar com a revolta das máquinas. É destes que o povo muito gosta, ficando contentíssimo de medo quando vê filmes deste teor. O sadomasoquista Vinge, dentro da óptica do susto, vaticina que poderemos vir a criar, por volta de 2030, um computador com inteligência super-humana que não necessitará de nós para nada.

Mas deixemos esses que nos querem assustar e lembremo-nos que devemos a Ray Kurtzweil o grande desenvolvimento dos sistemas de reconhecimento de voz e de reconhecimento de caracteres, os utilíssimos OCR. Devemos-lhe também, entre inúmeras e importantes outras coisas o «Clinical Reporter», que permite aos médicos criar relatórios, ditando-os para um computador. É uma pena que não se saiba disto no nosso SNS e o médico perca dois terços do tempo de atendimento do paciente a agredir o teclado do computador, servindo o sistema – e não servindo-se do sistema – dando razões, embora falsas, aos que acham que as máquinas nos hão de escravizar.

Ultimamente, Raymond Kurtzweil tem-nos brindado com interessantíssimas palestras – o Youtube está pejado delas – onde nos fala do futuro que prevê para a humanidade. Produziu, inclusive, um filme intitulado «The Singularity is Near: A True Story About the Future», mas para sabermos mais acuradamente das suas visões futuristas nada como ler o seu livro «How to Create a Mind». Neste ponto, esclareça-se que o nosso conceito de mente tem uma outra dimensão, enquadrando-se bastante nos conceitos do «Espectro da Consciência», de Ken Wilber, que por sua vez diverge bastante dos enquadramentos que se vêm fazendo dentro do conceito de «singularidade tecnológica», e, por maioria de razão, diverge ainda mais da ala pessimista de tal visão.

De certo modo, quem faz previsão com base na «singularidade técnica» cai num paradoxo, porque singularidade só pode significar o que está além da previsibilidade, pelo que cabe aqui perfeitamente o dito do tal jogador de futebol: previsões, só no fim do jogo.

De qualquer forma, este conceito segue-se à formulação bem conhecida dos habitantes da cibernética da Lei de Moore, estabelecida pelo engenheiro da INTEL Gordon Moore, a qual estabelece que a capacidade de processamento dos chips dobra a cada 18 meses, numa progressão geométrica tendente ao infinito, se nenhuma barreira for encontrada.

Como nos adaptaremos ao progresso vertiginoso que engendrámos, se foram precisos muitos e muitos milhares de anos para evoluirmos do fogo ao nuclear?

Para os pessimistas, criámos um buraco negro, um abismo, e quando olhamos o abismo, como diria Nietzsche, o abismo olha para nós.

Os optimistas poderão dizer outras coisas, que inclusive serão chocantes para muitos. Um dia, aí pelos finais dos anos oitenta, numa palestra em Sintra sugeri que a humanidade futura não mais faria transplantes de órgãos, cultivá-los-ia em laboratório, a partir de células do próprio receptor e que, num futuro não muito longínquo nos fundiríamos com as máquinas, ou antes, criaríamos máquinas orgânicas que incorporaríamos na nossa vida física, no nosso corpo físico. Os presentes não se entusiasmaram com a ideia e alguns acharam mesmo que era uma heresia imprópria de místicos e espiritualistas. Ora acontece que o que eu previa já se iniciou, por enquanto timidamente.

O que os “espiritualistas” que se horrorizam com a matéria, que dizem desprezá-la, não entendem é que o que tem de ser tem muita força. Deviam perguntar-se se não será plausível imaginarmos termos sido um produto pouco conseguido duma manipulação genética de que não temos mais memória do que alguns textos ambíguos que temos vindo a catalogar como sagrados.

A ser assim, bem-avisada andaria Rosa Bertin, costureira da rainha Maria Antonieta, quando dizia «apenas há de novo o que já foi esquecido…»


[1] João Pinto, jogador do FCP

segunda-feira, 13 de março de 2017

PODE BEM SER QUE EU ESTEJA ERRADO

 

Contrariamente ao que muito boa gente pensa, não há qualquer prova científica de que exista a alma e, por maioria de razão, de que esta sobreviva à morte do corpo físico. O facto de haver cientistas que admitem tal fenómeno não compromete a Ciência. Além disto, nem todo o conhecimento tem de ser científico, mas o que deste esperamos é um critério seguro de demonstração.

No campo da espiritualidade – é nesse campo que a alma medra – as demonstrações de cada um a si próprio serão tão seguras quanto o método de aquisição e desenvolvimento dos sentidos próprios para conhecer realidades imateriais. Quem o consiga – e estamos a partir do princípio da existência de realidades imateriais – poderá dizê-lo a outro, mas não poderá convencê-lo do que não pode demonstrar. Alguns esoteristas, não sei se por excesso de boa vontade se por fraqueza e vaidade caíram no terreno dos magos de vão de escada, servindo-se de métodos circenses. É de tais falsidades que vem muito do descrédito que cai sobre o campo espiritualista. Se falarmos de religião, então essa tristeza, para não usarmos outro adjectivo, atinge foros indiscritíveis.

Recorrentemente, a imprensa traz notícias deste género: cientistas determinaram o peso da alma. Da alma? Bom, se ela for imaterial – como eu a entendo – não tem peso, como é óbvio. Mas são notícias bem-intencionadas: destinam-se a deixar-nos bem-dispostos.

Mas excitante, excitante foi o que aconteceu na semana passada e que entusiasmou muitos dos meus amigos, inclusive da minha área de pensamento. Uma notícia vinda do Canadá dizia que um indivíduo «completamente morto» apresentava reacções electro encefálicas, ondas cerebrais ou coisa assim, o que daria que pensar. E eu pergunto-me: pensar em quê?

Os intrigados do costume puseram-se logo a magicar: cá está, isto é coisa de vida para além da morte. Será? Não terá uma explicação mais terra à terra? É que eu vi – entre muitos horrores – um indivíduo cuja cabeça explodira continuar a caminhar. Certamente que o seu cérebro, que deixara de existir, não emitia ondas de letra grega alguma. O corpo estava ainda vivo, mas o indivíduo estava morto. A morte do indivíduo, para os esoteristas, dá-se quando se rompe o popularizado cordão de prata; as células do corpo vão morrendo devagarinho. É neste processo de degradação que a biologia, a química, a electroquímica e o electromagnetismo dão uma grande ajuda ao nosso entendimento.

O apetite que alguns esoteristas têm para adoptarem dos cientistas materialistas a confusão entre cérebro e mente fá-los esperar do material o que só o imaterial pode dizer.

Os relatos de experiências perto da morte (ou de quase morte) podem ser muito inspiradores, mas só isso. Muitos cientistas querem explicar de outro modo o que os crentes não crêem.

Mas não se assustem, que também tenho muitas coisas que me dão que pensar, mas que não vêm nos jornais e muito menos na Internet. Creio na realidade da reencarnação, mas não creio que o Manuel nasça João na próxima encarnação. O convencimento que me toca nada tem a ver com o que vem na fancaria literária que por aí pulula, mas na minha pessoal concepção, influída e desenvolvida a partir dos ensinamentos rosacruzes. Já escrevi bastas vezes sobre isto e continuarei a escrever. Resumidamente – o resto podem deduzir – é que todos os meus amigos, que neste momento me lêem, quando chegar a hora, morrerão definitivamente e – presume-se – o essencial, que deu vida ao vosso corpo, persistirá para mais tarde dar vida a outro actor e não ao mesmo. Nenhum de nós foi Napoleão, nenhum de nós foi Cleópatra, nem estes personagens foram outros antes. E, no entanto, em cada um de nós, personagens no palco, reside uma multidão. Cada um de nós é uma legião, uma súmula de actos gastos, de aprendizagens e evolução.

Quem conte resolver em uma nova encarnação o que não resolveu no tempo que gastou e no tempo que lhe reste do entreacto que agora vive, desiluda-se, porque não há tempo de compensação. Isto não é o futebol e os maus actores não merecem mais do que ser pateados.

quinta-feira, 9 de março de 2017

DO CONDICIONAMENTO

 

Pode ser útil deveras, ouvirem-se frases exclamativas e respostas desprevenidas e improvisadas: possibilitam-nos saber do próprio falante coisas de que ele nem sequer se apercebe. Por exemplo, alguém diz a torto e a direito «eu cá sou muito sincero». Isto permite-nos esta reflexão: quem é sincero não o diz, não lhe ocorre dizer…

Aquilo que mais se nos solta na boca de forma exclamativa liga-se sobretudo ao remorso e à frustração. Trata-se do reflexo de um jogo entre a sombra (que é o eu recalcado) e o eu ideal (um desejo de corresponder ao que nos possa gratificar). Nos casos mais dramáticos, o jogo assume foros de guerra civil. Cada um de nós é uma guerra civil.

Aquela mãe neurótica, de que nos fala José Flórido, não é uma mãe em concreto, é um modelo. E o modelo não foi criado por ela, recebeu-o do meio familiar e conformou-se. É neurótica e não se dá conta, procura o cessar fogo da sua guerra civil reproduzindo o modelo recebido. Como o filho ainda não corresponde ao modelo que é bom porque sim, acha-o neurótico e talvez acabe por decidir levá-lo ao médico – também este condicionado – que lhe há-de receitar umas pilulas e decretar que o menino é hiperactivo. As pílulas são hoje o sucedâneo do velho cinto do papá severo.

A mãe de que falamos é o fruto maduro – a maioria de nós é esse fruto maduro – de uma sociedade que se rege pelo prémio e pelo castigo, componentes básicos do pensamento único liofilizado. O filho da mãe modelo da nossa esclerose mental está ainda em vias de condicionamento: se não for pelo prémio será pelo castigo.

Todos somos animais falsamente pensantes e verdadeiramente condicionados pela superestrutura ideológica que nos torna neuróticos, mas não sabemos viver sem esse condicionamento. Não somos capazes de agir e de pensar fora desse condicionamento que nos tolhe.

Isto poderá entender-se melhor se recorrermos ao pensamento de Gurdjieff, à sua lógica dos adormecidos e dos despertos. Também a saga cinematográfica Matrix, que aliás bebe na escola do Quarto Caminhoi, nos alerta para o nosso terrível handy cap.

O psicólogo ANTONIO BLAY FONTCUBERTA, já falecido, percursor da Psicologia Transpessoal tratou deste assunto dos modelos, da adesão aos modelos e do nosso condicionamento de um modo pormenorizado e profundo nas suas aulas, palestras e livros. Vale a pena procurar s seus ensinamentos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A PROPÓSITO DA CREMAÇÃO DOS CADÁVERES

Vendas Novas, 13 de Fevereiro de 2017

Não se sabe quando começou, de forma ritualística (pira de lenha, por exemplo), a cremação de cadáveres, mas as investigações arqueológicas fazem remontar esta prática a pelo menos, 7 000 a.C.

Havia outras formas, que não a cremação, dos povos se desfazerem dos despojos humanos, como abandoná-los às aves de rapina, prática que no Tibet só foi abandonada depois da invasão chinesa.

A inumação foi a regra para os chamados povos do Livro: judeus, cristãos e muçulmanos, derivada da crença na Ressurreição (que significa pôr-se de pé).

A morte gera o medo e o medo gera toda a sorte de superstições. Acreditar na Ressurreição - os cadáveres a levantarem-se - não será a pior. Se não fosse superstição, eu queria ver a discussão - estou a lembrar-me dos transplantes - dá cá esse coração que é meu toma lá este rim que é teu.

Zoroastro recomendava que se abandonassem os corpos aos abutres. Tinha boas razões para isso. Dizia ele: «os corpos, aquando da sua morte, transformam-se em demónios, através da sua sombra».

Os nossos hábitos de posse - o meu corpo, a minha alma, a minha mulher, os meus filhos - levam-nos a encarar a morte como uma derrota. Nas sociedades modernas - isto é, nas sociedades decadentes - faz-se o culto do corpo, o silicone, o botox as drogas milagrosas. A vida é o corpo. Vai um familiar para o hospital, morre, e tem de ser necessariamente negligência médica. Tudo isto é um drama quando pensamos que a vida é o corpo e apenas o corpo: eu sou o corpo e o corpo sou eu. Para o cristão, sobra a crença de que o corpo se há-de pôr de pé um dia, e uma leve esperança de ter uma alma, que lhe permitirá dizer que vai desta para melhor.

Os crentes na reencarnação (no geral), tal como os cristãos, também estão muito presos ao chão, querem cá voltar, possivelmente mais bonitos e mais ricos, materialmente falando. Isto é, cristãos e reencarnacionistas primários são materialistas, sem consciência de o serem, o que agrava a doença.

Mas temos depois os esoteristas, os místicos e afins. É ou não é, companheiros?

Pois é, mas deixam-se contaminar pelo Zeitgeist. Começam por acreditar que têm - lá está o ter - um corpo físico, um corpo etéreo, um corpo mental, etc.,Mas não são capazes de dizer eu não sou o meu corpo físico, eu não sou o corpo etéreo, eu não sou o corpo astral, eu não sou o corpo mental. Pensam fazer a transição e preservar tudo isso que julgam ter e não têm.

É por isso que também muitos destes se assustam com a cremação, quando se deviam assustar com a não cremação. Será que também se assustam com o corte de cabelo e com o corte das unhas?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A PROPÓSITO DO DESAPEGO

 

Vendas Novas, 22 de Dezembro de 2016

O que abaixo se diz necessita do seguinte pressuposto: todas as coisas são o que são, sem prejuízo de produzirem (ou serem até) o seu contrário. Penso que não há nada melhor para representar o que acabo de dizer do que o símbolo wu wei.

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Aceite o pressuposto, o que se pede a quem nos leia é a máxima distância em relação à crença e ao preconceito, porque o peso daquilo em que acreditamos faz-nos parecer real e inilidível o que apenas é uma perspectiva, como também é apenas uma perspectiva tudo quanto aqui ponhamos.

Pois bem, hoje em dia reina, como nunca antes, nos meios espiritualistas em geral, e, entre os esoteristas, provavelmente ainda mais, uma inflação desnecessária de conceitos, por vezes contraditórios, que diríamos casarem bem – que absurdo! – com o espírito do tempo, mundanamente traduzido no pronto a vestir, no pronto a comer, no pronto a pensar, no pronto a acreditar, no pronto a dizer, sequelas do new age, e é por tais sequelas que se pode entender a tentativa de substituir as velhas amarras das religiões instituídas, os seus dogmas, por amarras novas, agora aveludadas; crenças suaves, no espírito do «tá-se bem»; tudo amor e paz, incenso, pedras, pedrinhas e berloques. Temos de ser felizes, mesmo que o mundo à nossa volta seja infeliz, que haja dor e ranger de dentes, porque, pelo nosso lado, fechamos os olhos e meditamos. É o «Se», do Rudyard Kipling, em versão marijuana, fumado ou não.

Virá isto do tal desapego, tão louvado pelos espiritualistas que pairam muito acima da mundana inconsciência dos que nem sequer sabem das excelsas virtudes dum mantra bem vocalizado, nem das ladainhas recitadas em línguas exóticas?

Ou virá isto precisamente do seu contrário?

Será desapego, olharmos o sofrimento dos incréus como coisa do carma, como coisa alheia, sem nos apercebermos da responsabilidade de sermos um com todos os seres?

O carma em que não devemos interferir é cómodo. É cómodo, é confortável amar em abstracto, desapegadamente, com o nosso «eu superior» bem polido pela língua desatada, qual rebuçado que se chupa e nos consola. Nada de egos, claro, que isso é para gentes que não sabem disto…

E até nisto, na distinção de ego e eu, que constitui um grande arrepio para os psicólogos, os crentes das novas crenças se enaltecem a si próprios e se desapegam dos mais. Sobre isto dos egos e dos eus falaremos mais tarde, mas a consulta de um dicionário de Psicologia pode adiantar serviço. Por agora, vamos apegar-nos ao desapego, começando por dizer algo digno de La Palice: se de tudo nos quisermos desapegar, sempre sobrará um apego, o qual é o apego ao desapego.

Há quem justifique o desapego falando de maia. O mundo é meia, ilusão, nada a fazer. Outros justificam-se com o amor a Deus. Aqui, poder-se-ia perguntar: que Deus? O que resulta da projecção personificada de desejos e medos?

Amar a Deus e ser indiferente (ou desapegado) às suas presumidas criaturas não será demasiado desapego?

Amar a Deus como Pai e Criador sem considerar a sua criação, sem amar o irmão lobo e a irmã pedra leva-nos à antiga pergunta: qual o som produzido pela árvore que cai na floresta, quando ninguém ouve?

Não pomos em dúvida a importância da capacidade para o amor impessoal, que poderemos identificar como um estado de compassividade perante a vida. Tal estado é, digamos assim, um estado de eucaristia, não como dizem os cristãos, mas como resulta da etimologia da palavra: o bem da caritas, do amor.

Parece-nos evidente que o estado compassivo é o pábulo do amor incondicional, mas isto não nos leva a pressupor que o desapego seja a sua consequência. O grande apego que a ânsia da vida nos induz impor-se-á a qualquer outro desejo vital ou ilusório.

De desapego falavam os grandes poetas sufis que proclamavam o «eu sou tu», ao identificarem-se com a alma, ao identificarem-se com Deus nas suas núpcias místicas. Mas, não seria isto, em boa verdade, um enorme apego à própria ideia de Deus?

E que amor incondicional e puro nos trouxe o islão com o só apego ao jugo divino, no seu tradicional apelo à submissão incondicional a uma vontade inconsútil plasmada em dogmas?

O desapego a tudo com a justificação de que só Deus é Deus e tudo mais é nada e, como nada, descartável e desprezível, leva a consequências dolorosas, muitas delas bem conhecidas. Pode levar-nos ao degolar é preciso, viver não é preciso, que é o despego aos outros. Explodir é preciso, viver não é preciso, que é o desapego à própria vida. E em tudo isto a perversão do amor através do despego.

Sublinhemos esta ideia: Não conduzirá o desapego, não terá como consequência necessária a indiferença ao sofrimento alheio, à insensibilidade, ou mesmo à crueldade?

Quem se der ao trabalho de consultar as actas da inquisição verá coisas deste teor: «…com muito amor e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo demos mais uma volta ao torniquete…»

Desapegados dos gritos das vítimas, desmembravam-nas por amor incondicional, impessoal e extraterreno. Os ouvidos impessoalizados não ouviam o apelo: «que fizeste com o teu irmão?»

Quando o desapego é muito, nem às orelhas temos respeito.

ABDUL CADRE

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A FLORESTA PETRIFICADA

 

SEM canhão não há negócio, sem povo não temos guerra, sem mentira não há soldados, sem soldados enferrujam os canhões e o negócio entra em ruina…

A mentira faz muita falta, é o que é.

Ela chegou um dia, assim como quem não quer a coisa, àquele povoado perdido no taciturno do tempo, onde os habitantes eram muito ingénuos, tinham aquela ingenuidade doentia que serve para esconder a perversidade que não parece bem mostrar.

Logo que chegou, cobriram-na de flores, tal fosse defunto. Ou fosse noiva. O padre-cura, no cumprimento dos deveres de ofício, naturalmente sagrado, ainda esboçou em acanhado murmúrio um aviso de pecado, venial, evidentemente, a ver se as gentes se encolhiam; o mestre-escola exclamou cuidado e o barbeiro fez-lhe um belo penteado. À mentira, não, ao mestre-escola, como devem perceber.

Portanto, a mentira estava linda de morrer, mas o louco que andava por ali ficou indiferente, ria apenas da forma habitual com que sempre ria, mesmo nos velórios e nos enterros.

Passado algum tempo, já o sol se afundava no horizonte, chegou a verdade cheiinha de cuidados e arrepios. Aí, toda a gente se assustou, o padre benzeu-se, o mestre-escola meteu baixa por doença e o barbeiro escondeu os pentes e pôs-se cuidadosamente a afiar as navalhas.

O povo olhou para a forasteira e sentiu a sua presença como uma provocação. Indignado, vociferou, juntou-se em magotes e cobriu a verdade de excrementos, para que se parecesse com a mentira tanto quanto possível.

Indiferente, o louco ria.

A verdade, que já ouvira dizer que se parecia com o azeite, que flutuava, querendo escapar à turba enfurecida, atirou-se à água, mas fui ao fundo.

Sem angústias, o povo riu como o louco nunca poderia, e prosseguiu na sua vida previsível e domesticada.

O louco sentiu-se acanhado no riso que lhe era próprio, ele que conseguia rir mesmo quando os vizinhos lhe batiam para esconjurar o medo e dar uso aos varapaus. Foi a única vez que se sentiu triste, mas riu.

Esta história faz pouco sentido nos dias de hoje, não é?

Claro. É que as coisas já não são bem assim: a verdade e a mentira, agora, equivalem-se. Equivalem-se, é como quem diz, porque tudo depende do proveito que dá e esta é a razão pela qual muita gente chama mentira à verdade e verdade à mentira, conferindo apenas pelas cotações de mercado, pois que o corolário do pós-moderno só poderia ser o pós-verdade.

Talvez haja ainda dos tais loucos que riem indiferentes, mas não sabemos. Havendo, escondem-nos em celas acolchoadas e o mais que lhes permitem é vaguear em corredores cheirando a éter. E não há varapaus. Quando muito, recorre-se a choques eléctricos.

A vida está muito liofilizada, não está?

Nas sociedades modernas mais progressivas os mentores do povo distinguem-se muito bem dos de antigamente. Os de agora usam rostos bem escanhoados e um sorriso indefinido, tipo hospedeira de bordo, que faz lembrar a indiferença do louco. Os tais de antigamente – e os que apesar de tudo ainda há – tinham bigodes façanhudos e o rosto sempre crispado. O certo, porém, é que quer uns quer outros mais não fazem que espremer o povo para que renda ou mandá-lo ir morrer longe em benefício da tesouraria, porque povo contra povo foi ontem e é hoje o negócio dos negócios.

E sabem que mais? Não vale a pena nos sentirmos tristes nem constrangidos: o povo gosta. Como sabem, o gosto é um hábito. Mesmo que diga que não, mesmo que jure, o povo gosta de ser enganado e gosta de guerra, porque a guerra é uma grande oportunidade de, numa enorme orgia, convertermos o ódio em balas, desopilar o fígado e cobrir de excrementos o que nos desagrada e o que nos amedronta; de darmos vivas ao dono e atirar para a vala comum aqueles que cobrimos de defeitos, pensando que assim não são parecidos connosco. Negamos-lhes a humanidade para que o ódio escorregue melhor e medre bem.

Tenho receio das celas acolchoadas? Tenho. Mas não consigo parar de rir.

 

ABDUL CADRE

POVO, OVO OU ÚTERO

V. Novas, 19 de Dezembro de 2016

É muita a pesporrência dos que se dão ares de superioridade por virtudes de berço, quando berço é coisa que se descarta, porque se cresce. Mas a falsa humildade dos que, bem anafados, se dizem vindos do povo, filhos do povo faz muita comichão no ouvido.

Para fazer bom ambiente, eu podia falar das virtudes do povo, ou desatar a dizer: eu também sou povo. Mas não me dá jeito. Podia até – e isso fazia-me parecer mais alto – dizer que tenho pena do povo, ou que sou amigo do povo, porque afinal também tenho pena dos gatos sem almofadinha de veludo e dos cães abandonados, que mendigam osso, mas não estou para aí virado. E não estou, antes de mais, por esta constatação simples: os que são amigos do povo lucram, enquanto eu perco. Não se trata de virtude minha nem de amarga lucidez, é apenas feitio. Sei que os amigos dizem que eu tenho um coração terno, mas não sou nem quero ser virtuoso, pelo menos da forma tortuosa e farisaica que vejo nos amigos do povo.

Os vendedores de ilusões dão ao povo codificada e pronta toda a crença necessária à perpetuação dos enganos, porque a mentira é do povo o alimento ideológico por excelência. O povo aprendeu cedo a odiar a verdade e lapida sem qualquer constrangimento quem lha queira dizer.

A verdade, sabe-se, dói mais do que tintura em ferida aberta, e também se sabe que a mentira anestesia, acalma e dá o prazer do sono e do sonho inconsequente, que é o estado que mais se parece com a felicidade e com a bebedeira.

Para que não se instalem dúvidas nas formatações comuns do pronto a pensar, que fique claro que estamos a chamar povo àquele estado indiferenciado da humanidade, tornado amorfo pelo hábito do redil e pela dinâmica de grupo. Isto sem descurarmos que povo é ovo ou útero onde tudo o que é ideia (ou falta dela) se fermenta (ou apodrece), germina ou morre na raiz. Para a palavra povo podíamos até inventar uma etimologia: pelo ovo. Mas vê-lo como útero é bem mais apropriado. Em sentido político bem desalinhado, trata-se do pábulo dos grandes interesses e a desculpa de todos os mandos e desmandos. Quando o povo se ilude de poder, é alienação certa pela ditadura do homem-massa, sendo do seu seio que logo sai o chicote que o reconduz à inércia que convém à ordem do grémio da pastorícia.

Diz-me a vida que só é amigo do povo quem lhe quer cavalgar as costas. Eu não quero ir a cavalo, prefiro andar a pé, por causa do colesterol. Sem companhia. Porque quem me acompanhe ou está enganado ou quer enganar-me. Eu não sou de companhia, não sou gato, não sou cão, nem tenho tendência para pastor.

ABDUL CADRE