quinta-feira, 9 de março de 2017

DO CONDICIONAMENTO

 

Pode ser útil deveras, ouvirem-se frases exclamativas e respostas desprevenidas e improvisadas: possibilitam-nos saber do próprio falante coisas de que ele nem sequer se apercebe. Por exemplo, alguém diz a torto e a direito «eu cá sou muito sincero». Isto permite-nos esta reflexão: quem é sincero não o diz, não lhe ocorre dizer…

Aquilo que mais se nos solta na boca de forma exclamativa liga-se sobretudo ao remorso e à frustração. Trata-se do reflexo de um jogo entre a sombra (que é o eu recalcado) e o eu ideal (um desejo de corresponder ao que nos possa gratificar). Nos casos mais dramáticos, o jogo assume foros de guerra civil. Cada um de nós é uma guerra civil.

Aquela mãe neurótica, de que nos fala José Flórido, não é uma mãe em concreto, é um modelo. E o modelo não foi criado por ela, recebeu-o do meio familiar e conformou-se. É neurótica e não se dá conta, procura o cessar fogo da sua guerra civil reproduzindo o modelo recebido. Como o filho ainda não corresponde ao modelo que é bom porque sim, acha-o neurótico e talvez acabe por decidir levá-lo ao médico – também este condicionado – que lhe há-de receitar umas pilulas e decretar que o menino é hiperactivo. As pílulas são hoje o sucedâneo do velho cinto do papá severo.

A mãe de que falamos é o fruto maduro – a maioria de nós é esse fruto maduro – de uma sociedade que se rege pelo prémio e pelo castigo, componentes básicos do pensamento único liofilizado. O filho da mãe modelo da nossa esclerose mental está ainda em vias de condicionamento: se não for pelo prémio será pelo castigo.

Todos somos animais falsamente pensantes e verdadeiramente condicionados pela superestrutura ideológica que nos torna neuróticos, mas não sabemos viver sem esse condicionamento. Não somos capazes de agir e de pensar fora desse condicionamento que nos tolhe.

Isto poderá entender-se melhor se recorrermos ao pensamento de Gurdjieff, à sua lógica dos adormecidos e dos despertos. Também a saga cinematográfica Matrix, que aliás bebe na escola do Quarto Caminhoi, nos alerta para o nosso terrível handy cap.

O psicólogo ANTONIO BLAY FONTCUBERTA, já falecido, percursor da Psicologia Transpessoal tratou deste assunto dos modelos, da adesão aos modelos e do nosso condicionamento de um modo pormenorizado e profundo nas suas aulas, palestras e livros. Vale a pena procurar s seus ensinamentos.

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