SEM canhão não há negócio, sem povo não temos guerra, sem mentira não há soldados, sem soldados enferrujam os canhões e o negócio entra em ruina…
A mentira faz muita falta, é o que é.
Ela chegou um dia, assim como quem não quer a coisa, àquele povoado perdido no taciturno do tempo, onde os habitantes eram muito ingénuos, tinham aquela ingenuidade doentia que serve para esconder a perversidade que não parece bem mostrar.
Logo que chegou, cobriram-na de flores, tal fosse defunto. Ou fosse noiva. O padre-cura, no cumprimento dos deveres de ofício, naturalmente sagrado, ainda esboçou em acanhado murmúrio um aviso de pecado, venial, evidentemente, a ver se as gentes se encolhiam; o mestre-escola exclamou cuidado e o barbeiro fez-lhe um belo penteado. À mentira, não, ao mestre-escola, como devem perceber.
Portanto, a mentira estava linda de morrer, mas o louco que andava por ali ficou indiferente, ria apenas da forma habitual com que sempre ria, mesmo nos velórios e nos enterros.
Passado algum tempo, já o sol se afundava no horizonte, chegou a verdade cheiinha de cuidados e arrepios. Aí, toda a gente se assustou, o padre benzeu-se, o mestre-escola meteu baixa por doença e o barbeiro escondeu os pentes e pôs-se cuidadosamente a afiar as navalhas.
O povo olhou para a forasteira e sentiu a sua presença como uma provocação. Indignado, vociferou, juntou-se em magotes e cobriu a verdade de excrementos, para que se parecesse com a mentira tanto quanto possível.
Indiferente, o louco ria.
A verdade, que já ouvira dizer que se parecia com o azeite, que flutuava, querendo escapar à turba enfurecida, atirou-se à água, mas fui ao fundo.
Sem angústias, o povo riu como o louco nunca poderia, e prosseguiu na sua vida previsível e domesticada.
O louco sentiu-se acanhado no riso que lhe era próprio, ele que conseguia rir mesmo quando os vizinhos lhe batiam para esconjurar o medo e dar uso aos varapaus. Foi a única vez que se sentiu triste, mas riu.
Esta história faz pouco sentido nos dias de hoje, não é?
Claro. É que as coisas já não são bem assim: a verdade e a mentira, agora, equivalem-se. Equivalem-se, é como quem diz, porque tudo depende do proveito que dá e esta é a razão pela qual muita gente chama mentira à verdade e verdade à mentira, conferindo apenas pelas cotações de mercado, pois que o corolário do pós-moderno só poderia ser o pós-verdade.
Talvez haja ainda dos tais loucos que riem indiferentes, mas não sabemos. Havendo, escondem-nos em celas acolchoadas e o mais que lhes permitem é vaguear em corredores cheirando a éter. E não há varapaus. Quando muito, recorre-se a choques eléctricos.
A vida está muito liofilizada, não está?
Nas sociedades modernas mais progressivas os mentores do povo distinguem-se muito bem dos de antigamente. Os de agora usam rostos bem escanhoados e um sorriso indefinido, tipo hospedeira de bordo, que faz lembrar a indiferença do louco. Os tais de antigamente – e os que apesar de tudo ainda há – tinham bigodes façanhudos e o rosto sempre crispado. O certo, porém, é que quer uns quer outros mais não fazem que espremer o povo para que renda ou mandá-lo ir morrer longe em benefício da tesouraria, porque povo contra povo foi ontem e é hoje o negócio dos negócios.
E sabem que mais? Não vale a pena nos sentirmos tristes nem constrangidos: o povo gosta. Como sabem, o gosto é um hábito. Mesmo que diga que não, mesmo que jure, o povo gosta de ser enganado e gosta de guerra, porque a guerra é uma grande oportunidade de, numa enorme orgia, convertermos o ódio em balas, desopilar o fígado e cobrir de excrementos o que nos desagrada e o que nos amedronta; de darmos vivas ao dono e atirar para a vala comum aqueles que cobrimos de defeitos, pensando que assim não são parecidos connosco. Negamos-lhes a humanidade para que o ódio escorregue melhor e medre bem.
Tenho receio das celas acolchoadas? Tenho. Mas não consigo parar de rir.
ABDUL CADRE
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