sexta-feira, 24 de novembro de 2023

NÓS E A NOSSA CIRCUNSTÂNCIA

 


«…Y no quisiste jamás salvarte solo
porque no hay salvación – decías –
si no es con todos…»
           Da canção «Padre»
           de Patxi Andión
 

Em 1914, o filósofo madrileno José Ortega y Gasset publicou a obra «Meditaciones del Quijote», onde consta a celebrada frase que eu muito uso, «eu sou eu e a minha circunstância». Em abono da verdade se diga que a frase é um pouco mais completa e rica do que isto, a saber: «eu sou eu e a minha circunstância, e se a não salvo a ela, não me salvo a mim».

Se a primeira parte da frase diz afinal o óbvio, isto é, que nos constituímos como uma unidade indissolúvel, um eu circunstancial, a segunda importa bem mais: apela à acção. Assim, no seu sentido completo, retiramos que o autor não entendia a circunstância como uma condenação total e absoluta.

Posto isto, talvez fosse produtivo procurarmos respaldo noutras áreas, que não a Filosofia, a Psicologia e a Sociologia, para as características da circunstância, nomeadamente atendendo ao seu papel na evolução.

O investigador John Karat, que tem desenvolvido a sua actividade na projecção e avaliação da tecnologia utilizável em pesquisa industrial é um dos nomes mais conceituados no estudo da interacção entre humano e computador. No decorrer dos seus trabalhos de investigação foi formando a ideia de que a mente colectiva molda a nossa evolução, o que aponta para um Universo Consciente onde não há leis da natureza, mas apenas hábitos e a evolução depende da quebra de hábitos. Toda a ilusão de acreditar numa lei estática da natureza resulta da lei do menor esforço, de não se sentir a necessidade de quebrar o hábito.

Em 1988, John Karat e a sua equipa efectuaram uma experiência altamente significativa, colocaram células intolerantes à lactose num ambiente onde só havia lactose como alimento. Se realmente houvesse a tal lei da natureza, estática e imutável, estas células intolerantes deveriam, como é óbvio, morrer, mas o facto é que todas sobreviveram, porque todas entenderam que enfrentavam um grave problema de sobrevivência. Perante isto, substituíram a enzima problemática por uma adequada a processar a lactose como alimento.

Moral da história: se uma simples célula tem a habilidade de decidir da sua evolução, obstando à extinção, não será abuso pensar-se que tudo o mais por onde a vida flua tenha equivalente capacidade…

E tal capacidade resulta de quê?

Presumidamente duma mente global onde a própria natureza se insere, contrariando assim as crenças existentes de que o corpo humano não passa de uma máquina bioquímica controlada pelos genes. Se assim fosse, teríamos que o comportamento, as emoções e o carácter da nossa biologia, da nossa saúde, as nossas vidas em suma, seriam determinadas por genes que nós não controlamos. Fomos ensinados assim, fomos levados a aceitar que somos vítimas impotentes do egoísmo dos nossos genes, genes que não escolhemos e não nos é dado controlar, os quais programam tudo em nós, como se a circunstância de cada um fosse inconsequente.

As experiências do dr. Karat e a sua equipa com células tronco parecem desdizer isso.

Colocadas células tronco em placas Petri, elas vão-se dividindo a cada dez horas e, dentro de um dado ambiente, nada de relevante haverá para assinalar, mas se as dividirmos em três grupos, por exemplo, em três placas distintas, com ambientes diferentes, umas constituirão, por exemplo, tecido adiposo, outras tecido muscular e outras tecido ósseo…

Que lei da natureza controla tais destinos, se elas eram todas geneticamente idênticas?

Certamente que não podemos concluir outra coisa se não que a responsabilidade cabe ao ambiente, à circunstância. Ou seja, teremos finalmente de admitir que os genes não controlam a vida, respondem à vida. Assim sendo, também podemos admitir que se nós conseguirmos controlar a resposta é a vida que estamos a controlar. Voltamos ao Gasset: nós e a nossa circunstância.

 

 

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