Para o estudo do cristianismo e sua implicação na formação da cultura ocidental não é tão importante assim provar-se que a figura de Jesus é um facto histórico, como querem teólogos e crentes. Ser uma criação de um colégio de «sábios», que a meu ver é muito provável, em nada altera o impacto histórico que tal ideologia social, política e religiosa teve no mundo.
Todavia, o que seria sobremaneira importante aquilatar era da positividade ou negatividade da implementação do Cristianismo ao longo destes dois milénios. Não refiro utilizarmos o se, de que a contraprova só cabe na imaginação. É sabermos dos prejuízos e benefícios atribuíveis a algo que foi imposto à humanidade a ferro e fogo. Há poucos estudos a propósito, porque tratar-se de tal envolve demasiada paixão desenvolvida em dois campos antagónicos irredutíveis. Penso que para o crente é impossível alhear-se do que crê e lhe cega qualquer entendimento; para o que se opõe a qualquer tipo de crença, a sua oposição é afinal uma crença em si mesma, chamada de descrença, que, dado o peso da razão, pode não cegar como aos outros cega, mas de algum modo obnubila.
Com a hipótese de mitificação em mente, é bom ter-se em consideração que isto de se usar uma figura fictícia para a criação de algo de relevante e de contornos místicos não é caso único, por mais que Jesus eventualmente aqui se não enquadre, mas eu creio que as possibilidades de se enquadrar são muito fortes. Quero lembrar, especialmente aos que bebem das águas do esoterismo, que Christian Rosenkreuz, patrono do rosacrucianismo moderno, não teve existência histórica, foi uma criação mítica do Círculo de Tübingen, que funcionava na universidade do mesmo nome, figura promovida nos célebres manifestos de Cassel, do século XVII. Deste círculo faziam parte, entre outros, Valentim André, Wilhem von Wense, Tobias Hess, Christophe Besold e John Arndt.
Mitos e ficções são o sal do entendimento, ou dos entendimentos. Podemos referir-nos a coisas bem mais recentes, por exemplo, o mitificado Fulcanelli, tomado como autor das Mansões Filosofais e O Mistério das Catedrais. Fulcanelli foi um pseudónimo atribuído ao pintor e alquimista Jean-Julien Champagne, que morreu muito novo. O nome Fulcanelli foi adoptado por um grupo de alquimistas, de que Champagne fez parte, conhecido por grupo Schwaller, que integrava vários alquimistas contemporâneos, para além do referido pintor, mas cujos trabalhos mais importantes foram produzidos pelo livreiro e erudito Pierre Dujols de Valoir, considerado o mestre do grupo, que havia sido fundado pelo egiptólogo René Schwaller de Lubicz, falecido em 1926. Do mítico Fulcanelli, tudo o que à edição foi dado saiu da pena do seu divulgador, que prefaciou os respectivos livros, Eugénio Canseliet, um alquimista que se dizia discípulo de Fulcanelli, que ninguém viu, e que acabou por declarar ser ele quem redigiu os livros atrás referidos com base em apontamentos do seu mestre.
Se não fosse abusivo, podíamos considerar que as ideias estão sempre em luta, em contradição, isto é, em guerra. E que talvez haja mentiras que se propalam para proteger a verdade. Assim a modos como dizia o Churchill: “Em tempo de guerra a verdade é tão preciosa que precisa de estar sempre protegida por uma escolta de mentiras.” Também os alquimistas assim procederam.
Da invenção do cristianismo por Paulo de Tarso até à sua aquisição por Constantino o que se efabulava visava proteger qualquer verdade? Creio que não. Tudo foi política, tudo foram estratégias de poder, tudo objectivou colocar a alma em cativeiro.
A ser assim, Jesus não passa de um álibi para a rendição das massas a um Deus despótico e cruel.
Abdul Cadre
