segunda-feira, 1 de abril de 2019

ALTRUISMO


O altruísta pode bem ser um egoísta que se desconhece. Tirar satisfação de uma atitude tida por altruísta é já ser pago; beneficiar com isso em fama ou em proveitos é um segundo pagamento, e não se deve ser pago duas vezes.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

DOS ANIMAIS E DOS HOMENS


Nestes tempos abastardados onde os valores se dissolvem e os entendimentos se confundem, põe-se de moda o que é estultícia, riem-se os muitos do que não usam.

Foi assim que entrou no parece bem falar de animal como se fosse gente e de gente como se fosse peste. Esta moda, esta falácia agrava-se quando é propalada por recém-convertidos de má consciência. O dichote de mau gosto «quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães», atirado entre graçola e azedume, diz tudo.

Há, evidentemente, muita gente que gosta muito de animais, mesmo muito. Este gostar muito provoca e dilata a posse, perverte o próprio gostar. É o caso daqueles possuidores de bichos a que vestem gabardinas e põem chapéu. Ninguém lhes chama torturadores, mas chamo eu, que gostaria que tais actos fossem considerados maus tratos. São desvios, dir-se-á. Mas estes desvios e desequilíbrios provocam depois conversa fiada por parte de demagogos que esgrimem a falácia dos direitos dos animais, sem nos dizerem que deveres lhes correspondem. Coisa obtusa!

E não nos dizem como podem os ditos exercer s seus direitos!

Não maltratar os animais não é uma questão dos seus direitos, que os não podem exercer, não podem recusar o guizo, o boné, a gabardina; é uma questão de dignidade humana, de respeito pela vida, de rejeição da violência e da crueldade.

Como bem disse José Saramago, «um animal não pode defender-se; se te regozijas com a sua dor, desfrutas da tortura, gostas de ver como sofre esse animal … então não és um ser humano, és um monstro».

Para os que usam e abusam dos clichés e ideias prontas a usar que estão na moda, apenas porque estão na moda; que muito vociferam sobre os direitos dos animais, sem se perguntarem por que alguns não têm direito à vida, sendo assassinados e cortados em bife, só lhes desejo bom apetite na sua verde consciência.

Dizia a minha avó que a consciência era verde, veio um burro e comeu-a…

Histon, 20 DEZ 2018

THE THIRD EYE


Histon, 20 DEZ 2018

Muitos dos curiosos das coisas do oculto, que lêem sem espírito crítico livros excitantes da fancaria pseudo-esotérica, postos em moda, não se apercebem de quanto esses livros resultam de outros livros – uns bons e outros maus – mal assimilados e comercialmente reproduzidos. Estou a lembrar-me de um bestseller de 1956, que originalmente se intitulou The Third Eye, e recebeu em português o equívoco de Terceira Visão, sem que os falantes desta língua se interrogassem qual seria a segunda. Pouca exigência, como é evidente.

O autor, um inglês chamado Cyril Hoskins, que usava o pseudónimo Lobsang Rampa, nunca esteve no Tibete, mas escreveu uma vintena de livros a propósito que eram umas vezes cópia, outras continuações uns dos outros. Tudo o que neles conta que não seja disparate ou fantasia copiou ele da célebre obra autobiográfica do alpinista austríaco Heinrich Harrer, Sete Anos no Tibete, de que haveria mais tarde de ser realizado um filme. Este livro foi publicado, obviamente, antes do de Rampa (quatro anos antes) e, numa reedição de 1982 mereceu um prefácio e agradecimento do Dalai Lama. Mas tudo isto fica para outra altura, que o que interessa de momento é tratar do grande disparate contido no tal bestseller do Rampa.

Felizmente que os crentes naquela fantasia se limitaram a ler e sonhar, nada daquilo levando à prática, nomeadamente fazendo furos na testa, o que seria desastroso.

A nomenclatura portuguesa de Terceira Visão é um disparate e, como disparate, fica bem no disparate maior que é o livro. Apenas se justifica falarmos de duas visões: a física e a espiritual. A nomenclatura inglesa usada pelo Rampa de Terceiro Olho é um mau entendimento da parte dele. Tal nomenclatura – Terceiro Olho – usa-se no esoterismo metaforicamente, simbolicamente para designar visão interior, intuição, clarividência, realização espiritual. Nada disto se consegue com furos na testa. Os supostos órgãos físicos que medeiam estas capacidades são as glândulas hipófise e pineal. Já Descartes queria entender esta última como sede da alma. Mas que fique claro: o desenvolvimento psíquico – eis uma verdade de La Palice – só se consegue psiquicamente, não há mecânica que lhe valha.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A TESE MITICISTA


A tese miticista de Jesus, que tem como principal figura EARL DOHERTY, é descrita assim: «que não houve nenhum Jesus histórico digno desse nome; que o cristianismo começou com uma crença em uma figura espiritual e mítica; que os Evangelhos são essencialmente alegóricos e ficcionais, e que não é possível identificar somente uma pessoa por trás da tradição de pregação na Galileia».

Os principais livros de Doherty são «Jesus: Neither God nor Man»; «The Jesus Puzzle: Did Christanity Begin with a Mythical Christ?», ambos publicados no Canadá.

DA EXISTÊNCIA DE JESUS


Como já tenho escrito neste mesmo espaço, não tenho uma posição definitiva, nem uma opinião consistentemente demonstrável acerca da existência ou não do Jesus Histórico, mas inclino-me para a não existência.

Blavatsky sugeria – e Fernando Pessoa também – que o Jesus dos cristãos seria uma sobreposição a uma figura da literatura rabínica, Yesha ben Pandira, que teria vivido um pouco antes da nossa era. Outros autores falam de um certo Crestus, um messias essénio, dito também Mestre de Justiça, um pouco mais antigo ainda. Há também quem queira ver o Jesus dos cristãos como uma apropriação do mago Apolónio, que viveu precisamente no tempo que se atribui a Jesus.

Eu inclino-me para uma construção sincrética levada a cabo por um «colégio de sábios», a exemplo do que aconteceu no século XVII no respeitante a Christian Rosenkreuz.

Se têm curiosidade, interesse ou dever de investigar, pensem nisto: os principais críticos do século passado sobre a mitologia cristã surgiram na Alemanha e vieram precisamente da Universidade de Tubingen, a mesma de onde surgiram os célebres manifestos rosacruzes do século XVII.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O AVESSO E A CÂMARA ESCURA


Dito e escrito tenho eu, por variadas e bastas ocasiões, que todos temos uma forte propensão para analisar os problemas e os fenómenos com que tropeçamos de pernas para o ar (ou do avesso). Pode ser consequência de uma fragilidade genética. Bem sabemos que, quando olhamos algo, pelo efeito de câmara escura, a imagem projecta-se invertida na nossa retina. Então, para entendermos como convém, o nosso cérebro encarrega-se de a reorganizar, nem sempre bem, sobram muitos efeitos inconvenientes, ilusões de óptica. Sem dúvida que a pré-programação do cérebro nos presta bons serviços, e até podemos fazer-lhe alguns ajustes e introduzir-lhe aperfeiçoamentos. Pequenos, diminutos. muito limitados; pensemos por analogia nos ajustamentos que podemos fazer à Bios do nosso computador.

Pensar do avesso é que faz com que prevaleça a ideia – na Ciência e fora dela – que o cérebro criou a mente; eu penso o contrário. Claro que posso estar errado.

Também se crê que a mente é algo que entende e decide, e eu penso que não, que essas são funções da consciência. A consciência é a escrita de que a mente é o papel. A consciência pode distinguir o certo do errado, a mente não. Para a mente tudo é indiferente, aceita o que lhe dão, o que nela se inscreve. Quem duvide pode experimentar dizer a alguém: «não penses nisso» – uma preocupação qualquer que a pessoa tenha – e perguntar-lhe se deixou de pensar, ou se pelo contrário a preocupação se avivou.

Quando pegamos numa folha de papel, podemos escrever nela uma carta de amor, uma equação de matemática ou uma denúncia, anónima ou não. Ao papel é indiferente.

Quando falamos da tendência de ver as coisas ao contrário – veja-se a moda de pensar que a adrenalina nos produz excitação – devíamos olhar para o que diz a ciência: é a excitação que produz a adrenalina.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

DO CORAÇÃO Á BARRIGA UM PALMO MEDE A DISTÂNCIA


Para o bem e para o mal, a civilização que é costume referir por ocidental foi moldada numa lógica de crenças que chamaríamos abraâmica, com génese, portanto, no Antigo Testamento.
Dos três cultos – mosaísmo, cristianismo e islamismo –, tornou-se preponderante o cristianismo que, com as suas novas escrituras, que todavia não revogavam as antigas, apenas derrogavam a lei do olho por olho, propunham a nova lei do perdão e do amor.
É evidente que esta intenção nunca foi institucionalmente conseguida, mas isso são outros contos.
O que queremos dizer é que se estabeleceu uma dada cultura, cuja génese está no culto a uma figura que pode até não ter tido existência histórica, mas apenas fundacional e mítica. Todavia, o que é certo é que ter existido ou não ter existido não altera a realidade do molde da nossa civilização.
A este propósito não temos uma posição assente, por isso vamos partir da hipótese mais aceite, que Jesus possa ter existido, mas não relevando demasiado o grande handy cap de que Dele se não conhece nem se lhe atribui qualquer escrito; quanto se saiba ou julgue saber, chegou-nos por interpostas pessoas, que não tinham nos seus propósitos fazer História ou jornalismo, apenas desejavam conquistar e doutrinar prosélitos.
É assim que, não havendo comprovações inequívocas e independentes, tudo o que se diga vale pelo crédito que se dê a quem o diga, não pelo peso de quaisquer factos ou provas. Não será boa prática olvidar que toda a autoridade tem de residir nos factos, por muito merecimento que se atribua a quem testemunha, analisa ou discorre.
Nas habituais especulações que se fazem, esgrimindo textos antigos, referidos ou não como sagrados, há demasiado alinhamento com os prós e os contras, chegando-se ao abuso de, sem se provar a existência de Jesus, se afirmar que era casado com Maria Madalena, sem que tal esteja escrito em qualquer texto fundador, esgrimindo-se o argumento totalmente estapafúrdio que teria de ser, porque no tempo e no lugar pareceria mal não ser, coroando a argumentação com uma falsidade, afirmando que o Evangelho de Filipe – um dos apócrifos – relata que Jesus beijou Maria Madalena na boca. Presumidamente, um beijo hollywoodesco, uma tontice New Age. Esse evangelho não diz tal coisa, diz que beijava mas não diz onde, podia ser na mão, na testa, não sabemos. Mesmo que fosse na boca, naqueles tempos como hoje, nem todos os que se beijam na boca se casam. Que o digam os russos. No referido achado arqueológico, a seguir à palavra beijou está um buraco no documento, que os cinéfilos quiseram preencher de acordo com os seus apetites.
Importa que esclareçamos aqui que não alinhamos nem com as hostes que só vêem virtudes nos Evangelhos Apócrifos, dizendo que esses sim é que são verdadeiros, nem das daqueles para quem só os canónicos contam. Aliás, devemos sublinhar que não será por serem canónicos ou não canónicos que mudamos de lentes ou do alinhamento dos passos; o que nos interessa é entender, é saber dos passos que os seguidores das diversas hostes dão e porquê. Esta é a razão de não levarmos a sério os que pegam nos apócrifos para atirar à cara dos alinhados com as ortodoxias, nem destes o uso dos canónicos para condenar toda a heresia.
Separe-se então o que é a análise dos textos, as diversas leituras, as plurais plausibilidades, os enquadramentos históricos; aquilate-se do que são factos, vestígios, indícios e não se confunda com lendas, nem com coisas em que se acredita ou quer acreditar.
É evidente que não podemos ignorar o que se diz nos muitos textos apologéticos do cristianismo, mas encará-los como indiscutíveis, e sobretudo querer impô-los como a palavra de Deus, pode assentar bem a um pregador de domingo à procura de obediência cega ou dízimo certo, não a quem quer compreender o mundo, nem a quem prefere a espiritualidade ao alinhamento com qualquer religião instituída.
Parafraseando o falecido Padre Carreira das Neves, é abusivo falar da palavra de Deus, porque Deus não tem boca. Aquilo que muitos designam por palavra de Deus é a palavra de homens que se julgaram divinamente inspirados e pregaram no tempo e nas circunstâncias vividas o que a sua razão e sentimento permitiram.
Os que imaginam um Deus com uma magnitude incomensurável não podem depois querer atribuir-lhe ser autor de iniquidades e pequenez saídas da boca de tanto profeta e redactor de escrituras.
É por razões circunstanciais e inspirações avulsas e díspares, acrescidas pelo passar do tempo, que muito corrompe e tudo transforma, que se tem uma grande pluralidade de evangelhos e um número assaz significativo de contradições insanáveis. E as contradições nada têm a ver com uns serem canónicos e os outros não. Todos eles têm contradições, e os que querem parecer não as ter, sendo esgrimidos como a palavra de Deus, são verdadeiras antologias de contradições. Todo o Novo Testamento o é.
Mas voltamos sempre ao princípio: os Evangelhos não são reportagens, não são História, não são ensaios académicos. São instrumentos apologéticos virados, não para a razão, mas para a emoção; não procuram provar, mas inspirar. Apesar disto, que só uma vontade de cegueira não tem em conta, aparecem os que, instalados em uma qualquer barricada ou púlpito, seguem a lógica dos tempos que correm da pseudo novidade e da excitação, descobrindo a pólvora todos os dias.
Consequentemente, diríamos que não é bom que se embarque nos vapores tipo New Age, sobretudo não é de dar qualquer crédito a evangelistas fabricados pelo marketing como, entre outros, o fabricante de dólares Dan Brown, que acha que os Evangelhos Apócrifos é que são o verdadeiro cristianismo, onde se dá um papel de relevo à mulher, enquanto os canónicos são falsos, machistas e misóginos…
Que conclusões aberrantes. Que ideias tão falsas. São afirmações sem qualquer suporte documental, ou meramente lógico.
Nas cartas dos apóstolos, especialmente nas de Paulo, isso pode encontrar-se, não especificamente nos Quatro Evangelhos. Nestes até se pode deduzir o contrário do que diz o Brown.
É bom que se tenha consciência de que não existem documentos originais de coisa alguma neste campo; todos os textos se constituíram em cópias uns dos outros. Isto tem a ver com o facto de que no princípio não havia uma igreja cristã, mas sim uma pluralidade de seitas judaicas chamadas cristãs, cada uma com o seu pregador a produzir as suas homilias.
Os «ses» que constantemente se avançam são carentes de contraprova. Não se olha para a História pelo que poderia ter sido, pelo «se», mas pelo que foi, ou se julga que foi.
Com os textos – quer apócrifos quer canónicos –, produzidos como dissemos por cópia de cópia, temos de contar com o velho vício de que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto; não nos basta ver o que foi escrito, mas como foi escrito. Há que ter em conta, também, que os textos canónicos são em geral mais antigos e mais cuidados na linguagem do que os apócrifos e que estes contêm muito mais contradições, e sobretudo fantasias, do que os outros.
Quanto ao feminismo de uns e o machismo de outros, é de ir às lágrimas. Canónicos e apócrifos são o que teriam de ser, isto é, reflectem a sociedade em que foram gerados, que era machista, evidentemente. Mas o que mais espanta é os defensores dos apócrifos acharem-nos feministas, quando se caracterizam precisamente por um supino machismo e misoginia que ultrapassa em muito tudo o que de Paulo se possa dizer, chegando ao ponto de ver a mulher como um mal necessário. Escrito está em muitos deles que a mulher só entrará no Reino dos Céus se se fizer homem.
O cristianismo é, muitos o dizem, em termos ideológicos o que Paulo quis e em termos políticos o que Constantino determinou. A mitologia fundadora resulta de um processo histórico e serve para que se sinta a religiosidade um pouco mais acima do que a barriga. Os «ses» não servem nem a barriga nem o peito.