quinta-feira, 25 de agosto de 2022

OFÍCIO DE VIVER

 

V.N. 25.08.2022

 

Ameaçada de morte, sujeita a riscos sem fim, a vida é um ofício perigosíssimo. Os mortos não correm quaisquer riscos. Valha-lhes isso…

Aqueles que vivem de propósito querem acreditar que a vida é uma escola de alto nível onde muito se aprende. Dizer isto, é um lugar comum, evidentemente. Menos comum será perspectivar-se que em tal aprendizado, neste modo de produção do conhecimento, digamos assim, é pela dúvida que se obtém o fermento do novo, porque pela convicção só o velho permanece na mortalha dos dias. A dúvida é a grande instigadora da descoberta, a raiz natural do pensamento; a convicção é a esclerose do pensar e a rotina do agir. Dúvida e convicção são duas condicionantes do nosso olhar o mundo, duas inércias opostas: a positiva, a do movimento – a dúvida – e a negativa, a da imobilidade…

Certamente que haverá quem se julgue dispensado destas condicionantes do pensar e do agir, mas equivoca-se. Falam alguns do destino, entregam-se outros, ao que juram, nas mãos de Deus, imaginando-o ama de leite. De tombo em tombo vir-lhes-á a angústia: ou não existem as mãos, ou falta o merecimento.

Mais intelectualmente apostados, há os que confiam em mestres do aquém e do além, não se apercebendo que os mestres de verdade nada ensinam, apenas nos inquietam, escondem-se cruelmente atrás dos nossos erros e vícios e não sentem as nossas dores.

Talvez a vida não precise de mestres que a ensinem, que ela apropria seja de si mesma e por si mesma a grande mestra, sábia, sagaz e intransigente.

Mas o facto é que cruzamos a vida num processo mental de crenças e ideias mortas, limitando mais ainda o que por natureza nos é limitado, a mente, que com vaidade dizemos nossa. Mas a mente humana é apenas um ténue reflexo da mente total e absoluta a que os rosacruzes chamam mente cósmica. É por via desta potência que sentimos infundidas em nós as capacidades mentais que nos caracterizam como humanos. Um pouco menos e éramos bichos, na melhor das hipóteses animais de companhia, mesmo não havendo a quem acompanhar.

É bem possível que não sejamos mais do que simples catalisadores desta inteligência de que utilizamos um nadinha por necessidade e exibimos mais do que temos por imodéstia.

A Inteligência Cósmica, por mais que anime o homem e nele se faça pensamento que as convicções infectam, mas que felizmente se higieniza e estimula pela dúvida, é distorcida porque o homem, convenhamos, não é um instrumento de alta fidelidade. Se o fosse, não pensava, era pensado.

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