terça-feira, 9 de agosto de 2022

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA

 

Kǒng Fūzǐ, ou Confúcio, como se usa em português, dizia perguntando: «Se ainda não conheces a vida, como podes pretender conhecer a morte?».

Pois. É que no tempo dele não havia Internet. Se ele agora aqui chegasse seria reduzido ao espanto e ao silêncio, que isto está cheio de sábios que tudo sabem e tudo debitam com a razão empedernida dos tiranos e a falta de dúvidas dos tolos.

Estes sábios cibernéticos até em Quanta são peritos, embora quanto a respeito digam seja de pôr os cabelos em pé aos investigadores da área, que, sendo uma minoria, não ousam nem têm pachorra para contrariar esta maioria de pulgas falantes. As ditaduras de maioria são bem piores que as ditaduras de minoria, elas impõem a ignorância pesporrente e o que de pior há em todos nós pelo peso e pelo número e não distinguem a verdade da mentira. As ditaduras de minoria. quando mentem sabem que mentem, e mentem porque mentindo lucram. As ditaduras de maioria nada lucram quer mintam quer falem verdade, querem apenas fingir que vivem. Afinal, bem andava Pessoa falando dos cadáveres adiados que procriam.

Nas sociedades actuais, onde tudo se compra, tudo se vende e tudo se vilipendia, as massas urbanas foram afastadas do saber de experiência feito, de que falava Camões. Afinal, compramos tudo feito e vamo-nos parecendo cada vez mais com os smartphones. Os putos na escola já vão dizendo: «então o “Setor” quer saber mais do que a NET?»

Experiência, experiência, foi-se. E no caso da curva da estrada que é a morte, de nascer todos tivemos a experiência que mal ou nada recordamos; de morrer, apenas a temida expectativa, por vermos morrer os outros à nossa volta. Deveríamos ter, de ambas as coisas, uma profunda e comprovada certeza: ninguém nasce por nós e ninguém morre por nós. E isto é tão certo para aqueles que acreditam que a morte é o fim de todas as dores e de todas as alegrias, a aniquilação total da nossa existência, como para os que acreditam na vida para além da morte.

O mistério da morte, como tudo o mais, anda bastante afastado das nossas reflexões. Nós não reflectimos, não precisamos, está tudo na NET. Afinal, vivemos neste exílio do pronto a comer, pronto a vestir, pronto a pensar e, sobretudo, pronto a dizer. Do mistério da morte ficou-nos apenas a bíblica cultura do sentimento de culpa e de culpabilização. Morreu-nos alguém no hospital? Foi negligência médica. O que é que alguém fez de mal para ter morrido de morte súbita?

Por que nascemos? Por que morremos? Lao Tze dizia: «Nascer é chegar, morrer é regressar», o que implica uma crença em vida para além da morte. Tudo bem. Mas se é para voltar para o mesmo sítio, porquê nascer? Dizem alguns, com aquela certeza que só a NET e as seitas de colesterol mental vendem, que andamos por aqui para aprender. Não seria mais simples dizer-se que se nasce porque sim e se morre porque sim? que nascer e morrer são dois aspectos da vida e que a finalidade da vida é apenas viver? Que o digam as árvores e as flores, que não vão à missa nem consultam a Wikipédia.

Eu não sei. O leitor sabe? Sabe, ou tem, aprendida algures, uma resposta pronta que lhe apazigua o medo e lhe abafa a dúvida?

Sabe? É que há quem diga que o Além, a alma, coisas que não possam ser testadas e medidas são superstição e obscurantismo que derivam dos nossos medos atávicos e são promovidas pelas religiões e pelos ocultistas.

Deixemos aqui as perguntas básicas:

- Haverá vida para além desta vida material e biológica?

- A consciência, isto é, o eu sobrevive ou não à extinção das funções vitais do corpo?

 Quem saiba de experiência feita que o diga; quem apenas creia, pergunte-se por que crê assim e não crê assado.

Ah! E atenção, nada de testemunhos de terceiros e coisa e tal. Nem das tais experiências de EQM. Deixemos o subjectivo ao subjectivo, sem prejuízo de conversarmos, com a premissa de que ninguém diga é assim, porque está na Bíblia ou o disse Einstein.  




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