quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CRÍTICA

 

V. Novas 7 de Setembro de 2016

CRÍTICA A «OS MISTÉRIOS DE JESUS - Seria o Jesus Original - UM DEUS PAGÃO?

Na colecção PORTAS DO DESCONHECIDO, as Publicações Europa-América, em Janeiro de 2002 deram à estampa o livro de Timothy Freke e Peter Gandy com o título acima reproduzido, que respeita literalmente o do original: The Jesus Mysteries – Was the original Jesus a pagan god?

Os mistériosNa contracapa pode ler-se: «Desvendar na vida de Cristo um ciclo de histórias míticas e arquetípicas, comuns a religiões pagãs, é a proposta desta obra. Ao contrário duma perspectiva literalistas que lê nos Evangelhos a vida real dum Deus nascido homem, os autores revelam-nos que as Sagradas Escrituras ocultam, na realidade, uma série de alegorias mitológicas herdadas do Paganismo: a vida de Cristo é a vida de Mitra, Osíris, Dionísio e outros deuses encarnados, nascidos de uma virgem, fazedores de milagres, mortos e ressuscitados. O que fica demonstrado sobre as verdadeiras origens do Cristianismo leva-nos a compreender a grande História dos Mistérios de Jesus Cristo

Tenho por hábito bastante rígido não comprar livros cujo título seja uma interrogação; se o autor não sabe nem se responsabiliza pelo que diz, por que carga de água nos pergunta? Quebrei o hábito porque precisamente a contracapa, como acima se constata, era aliciante e não interrogativa.

Os cristãos pouco indulgentes, quando ouvem falar de paganismo ficam um pouco arrepiados, embora sem razão para tal; etimologicamente falando, pagão designa o rural (conotado com o culto de Pã), sendo as suas crenças e práticas naturalmente mais plurais, menos sofisticadas e menos racionalizadas do que as urbanas, entre gregos e romanos.

Posto isto (e pela lei do menor esforço), sem perdermos o sentido do que dissemos, vamos usar o termo na acepção generalizada, pois serve bem o presente propósito.

Se tivesse cumprido o meu velho hábito, tinha ficado com a ideia de que os autores de Os Mistérios de Jesus nada nos queriam dizer sobre investigações suas e apenas jogavam forte na excitação comum de hipóteses assentes em não mais que imaginações desbragadas.

Acabei por constatar que o livro tem bastante interesse, embora não tanto quanto a contracapa promete. Vale sobretudo pelo que coordena e confronta, mas nada inova nem nada traz que já não tenha sido tratado por outros autores, que fazem remontar o cristianismo às práticas e mitos que o precederam. Os autores – todos os autores – não criam do nada e temos de entender que o processo ensaístico pressupõe que quem escreve submeta com mais ou menos rigor e honestidade o que vêem e o que estudam ao que previamente são e pensam, porque nem mesmo os grandes autores estão isentos dos condicionalismos das envolventes sociais, políticas, religiosas e intelectuais.

Timothy e Peter, de algum modo tocados pelo new age e objectivamente adeptos da mitificação das eras, daí a ênfase que dão a Aquário e o que pode fazer pelo homem, sem se interrogarem sobre o que o homem pode fazer independentemente do peso das eras. Os demasiados «ses» que colocam, parecendo lamentações sobre o que poderia ser e não foi, são deslocados em ensaística da história das religiões, porque todos os problemas são o que são e o «se» não se pode colocar como problema pelo simples facto de não ter sido; só o que é faz história. Mais do que isto é falarmos do anedotário popular, quando se diz que, se não tivesse morrido, a minha avó ainda era viva.

A grande lógica e lei de que o velho deve morrer para dar lugar ao novo aplica-se a tudo: aos seres vivos, às ideias, às crenças, aos sapatos… o que constitui – até parece um paradoxo – a perenidade desses seres vivos, desses sapatos (mesmo que outros), porque de todas essas coisas se vai transmitir a essência que alimenta a necessidade de viver, de pensar, de comungar, de possuir. E essa essência é em qualquer época o substrato de tudo, porque os tempos não são feitos de compartimentos estanques.

As chamadas correntes pagãs, pela pluralidade das crenças e dos mitos que integravam (ou integram) constituíam um todo complexo, uma matéria plástica e, como tal, permanente e continuamente moldável, capaz de receber qualquer aporte, de se adaptar e de conviver, inclusive com o paradoxo, coisa que aos centralismos ideológicos naturalmente repugna. Dentro do paganismo – vendo-o como corrente – cada elo mostra-se por si só um sincretismo religioso. Ora, não são assim as religiões ditas reveladas; nestas é o dogma do «para sempre» que conforma a crença e não o «desde sempre», que identificaria a razão de crer e a tradição. Ou seja, a obediência e a submissão substituem a convivência e a emulação, claramente observável no cristianismo e que podemos atribuir à sua cedência ao imperialismo romano, no seu casamento contra-natura.

De qualquer forma, as religiões dominantes dos nossos dias caracterizam-se pelo que excluem e por mutuamente se excluírem. Os seu declarados ideais salvíficos não se caracterizam pela inclusão das diferenças, mas pela sua eliminação, inclusive, em situações limite, pela eliminação física das diferenças.

É por isso que não podemos dizer, como dizem os autores, que «se o cristianismo reconhecesse a sua dívida para com os antigos Mistérios, voltaria a ligar-se à corrente universal da evolução da espiritualidade humana e tornar-se um parceiro, não um adversário de todas as outras tradições religiosas que classifica como “obra do Diabo”»

Estes «ses» não têm cabimento: o cristianismo tem em si próprio uma pecha mortal, que é intitular-se, não uma religião entre muitas outras, mas a única religião verdadeira. Quem não está com os seus dogmas será condenado, mesmo que seja uma criança inocente. Aliás, por vergonha, arranjaram para as crianças um inferno menos quente. O cristianismo não tem iguais nem tem parceiros e tudo justifica pela «palavra de Deus», que é a palavra dos mentores. O próprio apregoado ecumenismo do catolicismo, que a dada altura esteve de moda, para parecer bem, é promovido a contragosto e com várias tentativas de subordinação dos outros aos seus exclusivos dogmas. A relativa conciliação com a Igreja Ortodoxa não afasta o mal-estar de sempre, resquícios certamente das mútuas excomunhões ao longo da História.

E tudo isto, ao contrário do que querem os autores, não tem a ver com aquilo que eles designam por peso morto – o Antigo Testamento – e da sua «ciosa divindade tribal», tem a ver com o seu imperialismo romano e com alguns dos seus dogmas – precisamente os mais caracterizadores – inconciliáveis com o bom-senso, com o pluralismo, com a tolerância, com o espírito crítico e até com a caridade.

Abdicar desses dogmas implicaria ser outra coisa e não o que é e o que a sua hierarquia e os seus crentes militantes não querem que deixe de ser ou, dito de outra forma, deixaria um vazio… e bem sabemos que a natureza abomina o vazio.

Ainda bem para todos nós e ainda bem para os cristãos que o Antigo Testamento possa ser o tal peso morto, isto é, algo que dificulta o andamento, mas não impede o caminho, que o contrário – sim – seria terrível e medonho para os «gentios» a submeter à escravatura ou a passar a fio de espada pelos escolhidos perante a satisfação de Iavé, que os escolheu e a quem prometeu a terra, o leite e o mel – todo o planeta.

O calcanhar de Aquiles da obra de Timothy e Peter, se assim podemos dizer, está em que, submetendo-se a um título interrogativo, fazendo pressupor um encaminhamento para a investigação e para análise, os autores pedem desculpa a cada passo pelas constatações e demonstrações ao mesmo tempo que avançam propostas de salvação do «cadáver adiado que procria», que enquadram no seu proselitismo típico do New Age…

E nós não somos capazes do conveniente distanciamento. Quando nos lembramos desse movimento festivo, há uma imagem forte que nos invade sempre a mente: Jesus Cristo, com colares coloridos e outros penduricalhos, flores no cabelo, dedos em «vê» e a dizer arrastadamente: «Tá-se bem».

ABDUL CADRE

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

GENEALOGIAS

 

03 AGO 2016

 

É comum, entre os ocultistas, dizer-se que são três os elementos energéticos básicos da vida, os seus nutrientes: o sopro, o sémen e o sangue.

Javé soprou nas narinas do boneco de barro que era o Adão e transformou-o numa alma vivente, a quem ofereceu de seguida um athanor para a alquimia do sémen na perpetuação (pelo sangue) das gerações: Eva.

Image1Mas por Eva, a vida dura enquanto a sangue dura, a eternidade requeria então um outro sangue: tomai e bebei, que este é o meu sangue, diz o Cristo.

Mais prático, menos celestial e mais objectivo se conta nas histórias de vampiros: Drácula abre uma ferida no peito e dá de beber ao seguidor fiel.

Celestiais ou infernais, todos os rituais religiosos (e as crenças que lhes estão associadas) envolvem – em recalcamento, símbolo, acção ou sublimação – o sopro, o sémen e o sangue, porque os rituais religiosos são actos sexuais sublimados. Uma pintura, uma escultura, também. Evoluir é sublimar os instintos animais.

O amor das freiras pelo Cristo – não são elas, pretensamente, suas noivas? – tem uma carga erótica indisfarçável, como nos diria Freud. Note-se que é este mesmo simbolismo que Bram Stoker usa para as noivas do Drácula.

Abdul Cadre

 

O LADO FEIO DAS LUZES DE NÉON

 

Engels dizia que a violência é a parteira da História. Assim tem sido e assim continua a ser, mesmo quando travestida de acções menos primárias. É-o na perspectiva marxista de luta de classes e é-o igualmente do ponto de vista do animal que nos coube ser, porque o homem vive em completa promiscuidade com o animal que o suporta; desde a noite os tempos, aprendeu mais com as feras do que com os pássaros, mais com o medo do que com a temeridade, mais com a agressão do que com a fuga.

Frágil perante a natureza agreste, inventou a tribo para optimizar a exploração dos recursos, obter conforto para o corpo, reproduzir-se. Neste desiderato, aqueles com características mais semelhantes, mais próximas da natureza bruta submeteram os que dessa brutalidade menos comungavam.

Fundaram-se religiões, estabeleceram-se ideologias pregando a igualdade dos homens e os critérios do bem, mas elas próprias permitiram que uns fossem mais iguais do que os outros; inventaram Deus como proprietário do bem e, de imediato e em Seu nome, roubaram, violaram, torturaram, mataram. Aliás, todos nós descendemos de antropófagos, violadores e homicidas. Está no nosso ADN. Foi por isso, muito provavelmente, que as religiões do bem se tornaram o mal de sempre que nenhuma nuvem de incenso conseguiu disfarçar.

Para estarmos instalados na sociedade actual, é evidente que muita coisa sublimámos, mas esta sociedade, se é que nos fez perder os dentes, não nos livrou dos maus instintos nem nos impede os intentos. É claro que já não puxamos da espada e zás, rasteiramos, caluniamos, o fio da espada passou-nos para a língua. Aliás, chamamos democráticas às sociedades que privilegiam os linguarudos.

Já não tememos o Deus que dantes nos convinha e nunca vimos, agora o que tememos é não ter o suficiente do nosso Deus concreto, palpável e verdadeiro a que nos redemos, o senhor do ter, o deus dinheiro.

Hoje até achamos que a ambição é uma virtude – e jamais adiantou chamar-lhe pecado –, a competitividade um dever, como se a vida fosse uma corrida e o outro apenas um degrau de nos elevarmos a Deus, Nosso Senhor, o nosso idolatrado dinheiro a quem servimos e que de pronto nos abençoa na medida justa do nosso egoísmo.

Há quem pense – os ecologistas, por exemplo – que a natureza não gosta do nosso comportamento, e nós bem sabemos como ela é bruta, tão bruta que, quando éramos verdadeiramente brutos, não conseguimos jamais ser tão brutos quanto ela.

Valha-nos isso!

 

Abdul Cadre

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O MANUAL DOS INQUISIDORES

 

Em 1376, o inquisidor Nicolau Eymerich, escreveu o "Directorium Inquisitorum" (Manual dos Inquisidores).

Abaixo se transcreve o capítulo V para que aqueles que não conhecem fiquem a conhecer e os que fingem que não conhecem não façam cara de anjinhos.

A Inquisição, que com grande cinismo se chamava de Santo Ofício, foi instituída em Portugal em 23 de Maio de 1536, tendo a sua primeira sede em Évora, único local onde correram processos visando a extinção dos alumbrados (ou iluminados) precursores do rosacrucianismo moderno.

A extinção da Inquisição em Portugal só se deu em 1821.

 

 

O MANUAL DOS INQUISIDORES

Capítulo V

SOBRE A TORTURA

TORTURA-SE o Acusado, com o fim de o fazer confessar os seus crimes.

Eis as regras que devem ser se­guidas para poder ordenar-se a tortura.

Manda-se para a tortura: 1. Um Acusado que varia as suas respostas, negando o facto principal. 2. Aquele que, tendo tido reputação de herege, e estando já provada a difamação, tenha contra si uma teste­munha (mesmo que seja a única) a afir­mar que o viu dizer ou fazer algo contra a fé; com efeito, a partir dai, um testemu­nho somado à anterior má reputação do Acusado são já meia-prova e índice bas­tante para ordenar tortura. 3. Se não se apresentar qualquer Testemunha, mas se à difamação se juntarem outros fortes indícios ou mesmo um só, deverá proce­der-se também à tortura. 4. Se não houver difamação de heresia, mas houver uma Testemunha que diga ter visto ou ouvido fazer ou dizer algo contra a Fé, ou se aparecerem quaisquer fortes indícios, um ou vários, é o bastante para se proceder à tortura,

Geralmente, entre estas várias coisas – testemunha de conhecimento certo, má reputação em matéria de fé, e um forte indício – um deles só não basta, mas dois são necessários e bastantes para ser ordenada a tortura.

Há, entretanto, uma excepção ao que ternos vindo a dizer sobre o facto de a má reputação não ser suficiente para se orde­nar a tortura: 1. Quando à má reputação se juntam maus costumes; visto que as pessoas de maus costumes facilmente caem na heresia e sobretudo em erros que ori­ginam a sua vida criminosa. É desta forma que, por exemplo, os que são inconti­nentes e que têm grande inclinação por mu­lheres facilmente se convencem de que a simples fornicação não é pecado. 2. No caso de o acusado fugir, esse indício somado à má reputação é já suficiente para ser ordenada a tortura.

Segue-se a fórmula da sentença de tor­tura: «Nós, F... Inquisidor, etc., conside­rando com atenção o processo contra ti instruído, vendo que varias as tuas res­postas e que há contra ti provas suficien­tes, com o fim de tirar da tua boca toda a verdade, e para que não canses mais os ouvidos dos teus juízes, julgamos, declaramos e decidimos que no dia tal... à hora tal... sejas submetido à tortura».

Não deverá decretar-se a tortura sem primeiro ter inutilmente usado todos os meios de descobrir a verdade. Boas maneiras, esperteza, exortações através de outras pessoas bem-intencionadas, a refle­xão, as incomodidades da prisão, podem ser o bastante para conseguir dos réus a confissão da sua falta. Os tormentos não são mesmo um método mais seguro para conseguir a verdade. Há homens fracos que, à primeira dor, logo confessam crimes que não cometeram, enquanto outros, tei­mosos e fortes, são. capazes de suportar os maiores tormentos. Há homens que tendo já sido submetidos à tortura a su­portam com constância, porque se lhes distendem logo os membros e eles resis­tem fortemente; e há outros que, graças a sortilégios, se tornam a si mesmos insensíveis e seriam capazes de morrer no suplicio, sem nada confessar. Pata tais male­fícios, esses desgraçados empregam passa­gens da Escritura que, de forma estranha, escrevem em pergaminhos virgens, misturando-as com nomes de Anjos que ninguém conhece, círculos, caracteres desconheci­dos, que depois escondem em qualquer parte do corpo. Não sei ainda de remédios certos contra tais sortilégios, mas convém sempre despir e revistar bem os Acusados antes de os submeter à tortura.

Lida a sentença da Tortura, e enquanto os Carrascos se preparam para a executa­rem, convém que o Inquisidor e outras pessoas de bem façam novas tentativas para levarem o Acusado a confessar a verdade. Os Verdugos procederão ao des­pimento do criminoso com certa turbação, precipitação e tristeza para que assim ele se atemorize; já depois de estar despido, leve-se de parte e seja exortado novamente a confessar. Prometa-se-lhe a vida, sob essa condição, a menos que ele seja relapso, pois nesse case não se pode prometer-lha.

Se tudo isso for inútil conduzir-se-á à tortura, durante a qual será submetido a interrogatório, em primeiro lugar referente aos artigos menos graves em que seja sus­peito, pois que ele confessará as faltas leves de preferência às mais graves.

No caso de ele se obstinar sempre a negar, pôr-se-lhe-ão frente aos olhos ins­trumentos de outros suplícios e dir-se-lhe-á que vai passar por todos eles, a não ser que confesse toda a verdade.

Se enfim o Acusado nada confessar, pode continuar-se a tortura um segundo dia e um terceiro, mas com a. condição de seguir os tormentos por ordem e nunca repetir os já praticados, não podendo ser repetidos enquanto não sobrevierem novas provas, embora não seja proibido nesse caso o con­tinuar por ordem (ad continuandum non aditerandum, quia iterari non debent, nisi novis supervenientibus indiciis) sed continuari non prohibentur).

Se o Acusado tiver suportado a tortura sem nada confessar, deve o Inquisidor pô-lo em liberdade mediante sentença na qual constará que após um cuidadoso exame do seu processo, nada se encontrou de legiti­mamente provado contra ele, no respeitante ao crime de que havia sido acusado

Quanto àqueles que confessem, devem ser tratados como hereges penitentes não relapsos, se for essa a primeira vez; como impenitentes, se não quiserem abjurar; e como relapsos, se é efectivamente a se­gunda vez que caem em heresia.

Quando começou a estabelecer-se a In­quisição, não eram os Inquisidores quem aplicava a tortura aos Acusados, com medo de incorrerem em irregularidades. Esse cuidado incumbia aos juízes laicos, con­forme a Bula Ad Extirpanda do Papa Ino­cêncio IV, na qual esse Pontífice deter­mina que devem os Magistrados obrigar, com torturas, os Hereges (esses assassinos das almas, esses ladrões da fé cristã e dos sacramentos de Deus) a confessar os seus crimes e a acusar outros hereges seus cúmplices. Isto no princípio; posteriormente, tendo-se verificado que o processo não era assaz secreto e que isso era inconveniente para a fé, achou-se que era mais cómodo e salutar atribuir aos Inquisidores o direito de serem eles mesmos a infligir a tortura, sem ser preciso recorrer aos juízes laicos, sendo­-lhes ainda outorgado o poder de mutua­mente se relevarem de irregularidades em que às vezes por acaso incorressem.

De ordinário utilizam os nossos Inquisi­dores cinco espécies de tormentos no de­correr da tortura. Como isso são coisas sabidas de toda a gente não irei deter-me neste assunto. Podem consultar-se Paulo, Grilando, Locato, etc. Já que o Direito Ca­nónico não prevê particularmente este ou aquele suplício, poderão os Juízes servir-se daqueles que acharem mais aptos para conseguirem do Acusado a confissão dos seus crimes. Não, se deve, porém, fazer uso de torturas inusitadas. Marsílio men­ciona catorze espécies de tormentos: acaba por afirmar que imaginou ainda outros, como seja a privação do sono, também referida e aprovada por Grilando e Locato. Mas, se me é permitido dizer a minha opinião, isso é maís trabalho de carrascos do que tratado de Teólogos.

Ê por certo um costume louvável aplicar a tortura aos criminosos, mas reprovo veementemente esses juízes sanguinários que, por quererem vangloriar-se, inventam tormentos de tal modo cruéis que os Acusa­dos morrem durante a tortura; ou acabam por perder alguns dos membros. Também António Gomes condena violentamente esse procedimento.