segunda-feira, 27 de março de 2017

DA FELICIDADE

 

«O que toma a sério a sorte da humanidade é quase o mais infeliz de todos os homens… quase, porque o que toma a sério a sorte do mundo e o enigma do universo é ainda mais infeliz.»  FERNANDO PESSOA

 

Para se ver, sem carregarmos muito na tecla do relativismo, da inconsistência do ideal mundano e burguês de felicidade, bastaria uma simples experiência: uma pedrinha no sapato e uma pequena caminhada. Ai, que infeliz eu sou! Gritaria o experimentador.

Acreditem nisto: para sermos infelizes nem sequer é preciso que nos caiam em cima grandes desgraças, ou que a vida nos tenha dotado de um coração compassivo, basta que nos preocupemos com a felicidade, que nos iludamos, que optemos por remoer as contrariedades. É assim que podemos dizer sem muito exagerar que felicidade e infelicidade são conceitos ocos que esgrimimos para dar testemunho da ilusão dos sentidos e apresentar a bandeira branca da nossa rendição ao (des)pensamento comum.

Cultivar a alegria é que seria bom, e compartilhá-la prodigamente com quem à nossa volta anda de tristeza em tristeza a construir o seu sofrimento, seria óptimo.

Quando partilhamos a alegria, a tristeza encolhe-se envergonhada e comprometida. Esconde-se até a um canto. Que coisa boa!

Se calmamente reflectirem, hão de ver que a felicidade é como o horizonte: a gente caminha na sua direcção e ele afasta-se à mesma velocidade com que o queremos alcançar. Felicidade e horizonte não são realidades, são apelos do nosso desejo de ir além.

Habitualmente, confundimos felicidade com bem-estar e esquecemo-nos invariavelmente de o temperar com o sal da alegria bastante. A falta deste tempero escancara a porta da tristeza, porque o bem-estar, gerando frustrações no seu horizonte fechado, alimenta-se de si mesmo, não se satisfaz por mais que se tenha.

Feliz é o meu gato, de barriguinha cheia, na sua almofada de veludo. Inteligente como é, sabe que a almofada é só dele e, no seu ronronar habitual, diz-nos espreguiçando-se que não existe felicidade, o que existe é inconsciência, desamor pela dor e pelo sofrimento alheio. Ele não sofre, mia.

A acreditar no meu gato, não só não existe felicidade como não existe infelicidade, o que existe é conformismo e uma grande necessidade de dar um jeito à almofada. Não há quem não saiba – não é preciso ser gato – que o paraíso é apenas a medida da nossa inconsciência.

Sofremos, se a dor é nossa, mas se não for nossa, se formos imunes à compaixão, podemos gozar sem remorsos desse egoísmo que a sociedade que inventámos nos instilou e a que a nossa inconsciência chama felicidade.

Que bom seria aprendermos a miar.

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