Vendas Novas, 25 de Março de 2017
Samuel Langhorne Clemens, que se notabilizou com o nome literário de Mark Twain disse um dia que «é difícil prever: principalmente o futuro». No mesmo sentido, mas talvez sem a mesma intencionalidade, foi a frase que ficou famosa, de um jogador de futebol, de que «prognósticos só no fim do jogo»[1].
Assim é a vida, na sua quase absoluta imprevisibilidade. Mas o que é certo é que é precisamente nesta imprevisibilidade que reside o seu maior encanto e também, evidentemente, o maior perigo, porque se soubéssemos previamente que o barco ia ao fundo não embarcávamos. Esta imprevisibilidade, porém, não impede a nossa capacidade, seja por meios intuitivos, seja por meios racionais e pragmáticos, de estabelecer previsões gerais sobre o futuro (ou futuros) expectável.
É isto que leva a termos tantos futurólogos, inclusive de formação científica, a abusar da cadeira de Nostradamus, embora não se atrevam a ir tão longe, pois que o que dantes se podia prever para um século, não tem atrevido que o faça para uma década.
Quando Alvin Toffler publicou o seu famoso livro «A Terceira Vaga» – no Brasil foi chamado de «Terceira Onda» – generalizou os factos e os efeitos que se esperavam da era da comunicação, não tratou dos pormenores. Prever pormenores é desacreditar qualquer previsão.
Todos nós podemos ter a nefasta expectativa, que não necessita de previsão, da própria morte, de que afinal não temos qualquer experiência, e assim, porque não temos experiência, não sabemos como se vai dar. Quem julga amargamente prever a própria morte são os suicidas, mas falham muitas vezes: o veneno não sortiu efeito, a corda partiu-se, o combóio não passou.
Os apaixonados pelo Nostradamus adoram dizer que ele previu isto e aquilo, mas é pena que nos não digam antes de acontecerem as tais coisas que à força querem encachar num qualquer versículo das «Centúrias». Chegam até a chamar profecias aos vaticínios, quando sabem que os profetas não fazem vaticínios, falam de fé e dos segredos que Deus lhes confiou em exclusivo…
Nostradamus trabalhava sobre o que se costuma designar por ciclos pregressos, que é dividir os acontecimentos históricos em períodos geracionais, que se repetem, não a papel químico, mas em semelhanças e características susceptíveis de projecção no futuro. A razão e a intuição fazem o resto.
O maior problema de quem se instala como futurólogo é o condicionamento próprio, de acordo com o olhar a que se habituou para desenhar o presente. Grosso modo, o seu olhar pode ser francamente optimista ou indisfarçavelmente pessimista, ou até sadomasoquista, que é uma espécie de esperança de que tudo corra mal.
Este relambório todo, que alguns acharão excessivo, vem a propósito de uma modernidade de futurólogos assente na designação de singularidade tecnológica – expressão inventada pelo matemático Vernor Vinge – que tem como mais destacado expert Ray Kurzweil, um eminente investigador na área da inteligência artificial, o qual podemos classificar de optimista, já que vaticina um mundo pleno de maravilhas tecnológicas, onde evoluiremos de tal ordem que chegaremos a tornar preponderante o mundo virtual, ao contrário de outros que nos querem assustar com a revolta das máquinas. É destes que o povo muito gosta, ficando contentíssimo de medo quando vê filmes deste teor. O sadomasoquista Vinge, dentro da óptica do susto, vaticina que poderemos vir a criar, por volta de 2030, um computador com inteligência super-humana que não necessitará de nós para nada.
Mas deixemos esses que nos querem assustar e lembremo-nos que devemos a Ray Kurtzweil o grande desenvolvimento dos sistemas de reconhecimento de voz e de reconhecimento de caracteres, os utilíssimos OCR. Devemos-lhe também, entre inúmeras e importantes outras coisas o «Clinical Reporter», que permite aos médicos criar relatórios, ditando-os para um computador. É uma pena que não se saiba disto no nosso SNS e o médico perca dois terços do tempo de atendimento do paciente a agredir o teclado do computador, servindo o sistema – e não servindo-se do sistema – dando razões, embora falsas, aos que acham que as máquinas nos hão de escravizar.
Ultimamente, Raymond Kurtzweil tem-nos brindado com interessantíssimas palestras – o Youtube está pejado delas – onde nos fala do futuro que prevê para a humanidade. Produziu, inclusive, um filme intitulado «The Singularity is Near: A True Story About the Future», mas para sabermos mais acuradamente das suas visões futuristas nada como ler o seu livro «How to Create a Mind». Neste ponto, esclareça-se que o nosso conceito de mente tem uma outra dimensão, enquadrando-se bastante nos conceitos do «Espectro da Consciência», de Ken Wilber, que por sua vez diverge bastante dos enquadramentos que se vêm fazendo dentro do conceito de «singularidade tecnológica», e, por maioria de razão, diverge ainda mais da ala pessimista de tal visão.
De certo modo, quem faz previsão com base na «singularidade técnica» cai num paradoxo, porque singularidade só pode significar o que está além da previsibilidade, pelo que cabe aqui perfeitamente o dito do tal jogador de futebol: previsões, só no fim do jogo.
De qualquer forma, este conceito segue-se à formulação bem conhecida dos habitantes da cibernética da Lei de Moore, estabelecida pelo engenheiro da INTEL Gordon Moore, a qual estabelece que a capacidade de processamento dos chips dobra a cada 18 meses, numa progressão geométrica tendente ao infinito, se nenhuma barreira for encontrada.
Como nos adaptaremos ao progresso vertiginoso que engendrámos, se foram precisos muitos e muitos milhares de anos para evoluirmos do fogo ao nuclear?
Para os pessimistas, criámos um buraco negro, um abismo, e quando olhamos o abismo, como diria Nietzsche, o abismo olha para nós.
Os optimistas poderão dizer outras coisas, que inclusive serão chocantes para muitos. Um dia, aí pelos finais dos anos oitenta, numa palestra em Sintra sugeri que a humanidade futura não mais faria transplantes de órgãos, cultivá-los-ia em laboratório, a partir de células do próprio receptor e que, num futuro não muito longínquo nos fundiríamos com as máquinas, ou antes, criaríamos máquinas orgânicas que incorporaríamos na nossa vida física, no nosso corpo físico. Os presentes não se entusiasmaram com a ideia e alguns acharam mesmo que era uma heresia imprópria de místicos e espiritualistas. Ora acontece que o que eu previa já se iniciou, por enquanto timidamente.
O que os “espiritualistas” que se horrorizam com a matéria, que dizem desprezá-la, não entendem é que o que tem de ser tem muita força. Deviam perguntar-se se não será plausível imaginarmos termos sido um produto pouco conseguido duma manipulação genética de que não temos mais memória do que alguns textos ambíguos que temos vindo a catalogar como sagrados.
A ser assim, bem-avisada andaria Rosa Bertin, costureira da rainha Maria Antonieta, quando dizia «apenas há de novo o que já foi esquecido…»
[1] João Pinto, jogador do FCP