V.N. 14/12/2021
Em conversa amena com um profícuo publicista
do outro lado do Atlântico, que utilizou num dos seus ensaios aquela “verdade”
produzida pela repetição de que religião deriva da palavra latina religare,
confessou-me ele que a importância da ideia que se quer transmitir não deve
subsumir-se nem se restringir a critérios rígidos etimológicos.
Ora, não me parece que forçarmos a etimologia
para reforçar o nosso discurso seja pacificamente defensável, mas como o mundo
comunicacional adoptou os velhos critérios aligeirados do tanto faz dar-lhe na
cabeça como na cabeça lhe dar. Paciência, não podemos muda de mundo. Pelo menos
por agora.
Mas sempre lhes digo que eu costumo brincar
com falsas etimologias, por exemplo, que adulto tem a ver com adulterado, uma
criança que, ao crescer, se adulterou. Mas aviso sempre que é
brincadeira.
Nesta ideia mal alinhada, que se justifica com
a bondade da mensagem, eu pergunto: qual é a nossa? Somos pregadores? Somos
evangelistas? Cobramos o dízimo?
Será bondoso e aceitável usar incorrecções com
boas intenções?
Isto remete-nos para uma velha alegação daqueles
que vêem utilidade na fancaria literária dita esoterista, porque despertar a curiosidade
para “certos temas”. Como se, para incentivar as nossas crianças para a
natação, as deixássemos praticar num esgoto.
A juntar a tudo isto, e ainda na lógica de
tanto faz dar-lhe na cabeça como na cabeça lhe dar, usa-se e abusa-se da
classificação de sagrado, que vai do incenso aos berloques, passando pelo Livro
de S. Cipriano e desembocando nos livros ditos sagrados, alegados como a
palavra de Deus, logo postos a concurso para apurar qual o mais verdadeiro.
No concernente aos livros ditos sagrados, que
eu chamo consagrados, porque são as pessoas, e sobretudo quem das pessoas se
serve, que assim os nomeiam, a minha posição bebe nas águas de Krishnamurti;
considero-me um místico, não um religioso, como comummente se entende. É como
panteísta que sinto a divindade e racionalizo-a como taoista. Um Deus pessoal é
para mim um absurdo; diria mesmo, uma aberração e uma heresia. No meu
entendimento, todos os seres vivos e todas as coisas – homens, gatos, lacraus, vulcões – fazem parte da totalidade absoluta que, ao longo dos
tempos, tem sido chamada de Deus, de cuja consciência não só nos alimentamos,
como somos essa mesma consciência nos limites que nos demos, nos limites que
nos damos. É por esta razão que digo aos que usam a falácia do religar para
converter os incréus: meus amigos, deixem-se disso, porque nem pela morte nos podemos
desligar daquilo que somos, o que quer dizer que não nos religaremos, não temos
tal poder. Não sejamos presunçosos.
Quanto aos que se acham uma criação de Deus, quero
contrariá-los: não, não somos uma criação de Deus, somos apenas um rebento do
seu corpo e da sua consciência, indissociáveis desse mesmo corpo, seja no
florir seja no estiolar.
Mas o que eu sinta e pense não altera a
realidade do mundo, é a realidade do mundo que nos altera, porque nem sequer
podemos ter a certeza que seja mesmo nosso o pensamento que expressamos. Pode
bem ser que o pensamento ande por aí e nos apanhe desprevenidos quando não temos coisa mais mundana que fazer. O que
nos engana é a estultícia do ter: a nossa mulher, os nossos filhos, os nossos
haveres e, do mesmo jeito o nosso pensamento, a nossa religião, a nossa
filosofia.
Não sejamos presunçosos: um dos nossos pés,
mesmo que queira, não pode desligar-se de nós, mas nós podemos decepá-lo e
dá-lo a comer aos porcos. O nosso pé existe porque nós existimos e nós
existimos porque o Absoluto existe. Não criámos o nosso pé da mesma forma que
Deus não nos criou. Somos um com todas as coisas.
AC