sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

QUEM INVENTOU A TRETA DO RELIGAR?

V. N. 17-12-2021

Diz-se demasiadas vezes que o brasileiro é muito inventivo. Diz-se isto no bom sentido, está bem de ver. Todavia, se alguém, por exemplo, nos aparece com uma roda quadrada, não podemos chamar-lhe inventivo, pois não?

Vejamos o caso do etimologista brasileiro Silveira Bueno, que se tornou famoso com o seu recorde absoluto de referências com falsas etimologias. Foi ele o inventor do célebre RELIGAR, que faz as delícias dos espiritualistas catequizadores da Nova Era, que se estão nas tintas completas – eles não são de meias-tintas – para qualquer esforço no sentido do rigor.

Temos dito e redito que Religião é uma palavra que existe no português desde o século XIII, pelo menos, como derivando da palavra latina religio, como, aliás, qualquer dicionário decente regista. Mas é claro: é muito mais excitante, romântico, evangélico e catequizador alinhar com o falsário etimológico Silveira Bueno, autor de um dicionário com o seu próprio nome.

Que grande vaidoso!

Vaidoso, apesar de quando ainda vivo, usar o pseudónimo de Frei Francisco da Simplicidade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

AINDA O FAMOSO E FALSO RELIGAR


V.N. 14/12/2021

Em conversa amena com um profícuo publicista do outro lado do Atlântico, que utilizou num dos seus ensaios aquela “verdade” produzida pela repetição de que religião deriva da palavra latina religare, confessou-me ele que a importância da ideia que se quer transmitir não deve subsumir-se nem se restringir a critérios rígidos etimológicos.  

Ora, não me parece que forçarmos a etimologia para reforçar o nosso discurso seja pacificamente defensável, mas como o mundo comunicacional adoptou os velhos critérios aligeirados do tanto faz dar-lhe na cabeça como na cabeça lhe dar. Paciência, não podemos muda de mundo. Pelo menos por agora.

Mas sempre lhes digo que eu costumo brincar com falsas etimologias, por exemplo, que adulto tem a ver com adulterado, uma criança que, ao crescer, se adulterou. Mas aviso sempre que é brincadeira. 

Nesta ideia mal alinhada, que se justifica com a bondade da mensagem, eu pergunto: qual é a nossa? Somos pregadores? Somos evangelistas? Cobramos o dízimo?

Será bondoso e aceitável usar incorrecções com boas intenções?

Isto remete-nos para uma velha alegação daqueles que vêem utilidade na fancaria literária dita esoterista, porque despertar a curiosidade para “certos temas”. Como se, para incentivar as nossas crianças para a natação, as deixássemos praticar num esgoto.

A juntar a tudo isto, e ainda na lógica de tanto faz dar-lhe na cabeça como na cabeça lhe dar, usa-se e abusa-se da classificação de sagrado, que vai do incenso aos berloques, passando pelo Livro de S. Cipriano e desembocando nos livros ditos sagrados, alegados como a palavra de Deus, logo postos a concurso para apurar qual o mais verdadeiro.

No concernente aos livros ditos sagrados, que eu chamo consagrados, porque são as pessoas, e sobretudo quem das pessoas se serve, que assim os nomeiam, a minha posição bebe nas águas de Krishnamurti; considero-me um místico, não um religioso, como comummente se entende. É como panteísta que sinto a divindade e racionalizo-a como taoista. Um Deus pessoal é para mim um absurdo; diria mesmo, uma aberração e uma heresia. No meu entendimento, todos os seres vivos e todas as coisas homens, gatos, lacraus, vulcões fazem parte da totalidade absoluta que, ao longo dos tempos, tem sido chamada de Deus, de cuja consciência não só nos alimentamos, como somos essa mesma consciência nos limites que nos demos, nos limites que nos damos. É por esta razão que digo aos que usam a falácia do religar para converter os incréus: meus amigos, deixem-se disso, porque nem pela morte nos podemos desligar daquilo que somos, o que quer dizer que não nos religaremos, não temos tal poder. Não sejamos presunçosos.

Quanto aos que se acham uma criação de Deus, quero contrariá-los: não, não somos uma criação de Deus, somos apenas um rebento do seu corpo e da sua consciência, indissociáveis desse mesmo corpo, seja no florir seja no estiolar.

 Mas o que eu sinta e pense não altera a realidade do mundo, é a realidade do mundo que nos altera, porque nem sequer podemos ter a certeza que seja mesmo nosso o pensamento que expressamos. Pode bem ser que o pensamento ande por aí e nos apanhe desprevenidos quando não temos coisa mais mundana que fazer. O que nos engana é a estultícia do ter: a nossa mulher, os nossos filhos, os nossos haveres e, do mesmo jeito o nosso pensamento, a nossa religião, a nossa filosofia.

Não sejamos presunçosos: um dos nossos pés, mesmo que queira, não pode desligar-se de nós, mas nós podemos decepá-lo e dá-lo a comer aos porcos. O nosso pé existe porque nós existimos e nós existimos porque o Absoluto existe. Não criámos o nosso pé da mesma forma que Deus não nos criou. Somos um com todas as coisas.

AC

  

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

DEUS E O HORIZONTE

 

O problema da espiritualidade e da religiosidade dos nossos dias é haver quem queira espartilhar o sentir, o viver e o saber (e haver quem aceite isso) com a tal letra que mata.

Tudo começa por se pegar em textos consagrados pelos crentes iniciais e chamar-lhes sagrados. Se calhar até têm razão, porque, etimologicamente falando, sagrado é aquilo em que se não pode tocar sem perigo. Era o caso, segundo a lenda, da arca da aliança. Talvez assente nisto a razão de a Bíblia ter estado registada no Index durante séculos.

Quando alguns fiéis de certas religiões instituídas me dizem que os seus livros são a palavra de Deus, respondo-lhes com uma frase do falecido Padre Carreira das Neves: não podemos falar na palavra de Deus, porque Deus não tem boca. Então, esses textos são o quê? No meu entender, são inspirações de místicos do passado que se fizeram respeitar e seguir por gente carente de uma realidade maior que fosse um bálsamo à insensatez do mundo. Mas as explicações possíveis desses místicos só podiam ser dadas na linguagem dessas mesmas pessoas carentes, e no jeito desses mesmos místicos, o que impossibilitava ser a voz de Deus. Podemos querer ver nessas mensagens símbolos intemporais, mas o facto é que estão datadas e por isso corroídas pelo que o tempo faz a todas as coisas. E esta corrosão do tempo é uma necessidade básica da renovação das coisas e da vida na Terra. A Humanidade existe por que a morte possibilita que permanentemente se renove. É a perenidade relativa resultante do facto de que a família dura mais do que o indivíduo, a tribo mais do que a família, a nação mais do que a tribo e assim sucessivamente.

A Humanidade poderá querer encontrar Deus, mas não o poderá fazer lendo os textos que o tempo matou. Aí só poderá saber o que já foi, não o que é e muito menos o que será. O que nos motiva a viver é a imprevisibilidade da vida; o que nos motiva a saber é a dúvida.  O problema de se querer caminhar para Deus é que Ele é como o horizonte: damos em passo em direcção ao horizonte e o horizonte mantém a distância, afasta-se precisamente na medida do nosso passo. E, no entanto, é porque caminhamos que os caminhos se fazem, mas todos os caminhos são pessoais e intransmissíveis. Nenhum guru, nenhum mestre, nenhum profeta, podem ter descoberto o caminho que almejaram, não o nosso. Segui-los é tropeçar e não encontrar o nosso, é perdermo-nos em caminhos estrangeiros. Ninguém nasce ou morre por nós. Nós só chegamos ao Porto chegando ao Porto, mas não há nenhum certificado de garantia de que o nosso caminho é chegar ao Porto.

Mas não nos iludamos sobre os quesitos da nossa existência, ser parido não é a condição suficiente de vivermos porque, como tão bem soube expressar a Natália Correia, a gente só nasce quando somos nós que temos as dores.