Dito e escrito tenho eu, por variadas e bastas ocasiões, que todos temos uma forte propensão para analisar os problemas e os fenómenos com que tropeçamos de pernas para o ar (ou do avesso). Pode ser consequência de uma fragilidade genética. Bem sabemos que, quando olhamos algo, pelo efeito de câmara escura, a imagem projecta-se invertida na nossa retina. Então, para entendermos como convém, o nosso cérebro encarrega-se de a reorganizar, nem sempre bem, sobram muitos efeitos inconvenientes, ilusões de óptica. Sem dúvida que a pré-programação do cérebro nos presta bons serviços, e até podemos fazer-lhe alguns ajustes e introduzir-lhe aperfeiçoamentos. Pequenos, diminutos. muito limitados; pensemos por analogia nos ajustamentos que podemos fazer à Bios do nosso computador.
Pensar do avesso é que faz com que prevaleça a ideia – na Ciência e fora dela – que o cérebro criou a mente; eu penso o contrário. Claro que posso estar errado.
Também se crê que a mente é algo que entende e decide, e eu penso que não, que essas são funções da consciência. A consciência é a escrita de que a mente é o papel. A consciência pode distinguir o certo do errado, a mente não. Para a mente tudo é indiferente, aceita o que lhe dão, o que nela se inscreve. Quem duvide pode experimentar dizer a alguém: «não penses nisso» – uma preocupação qualquer que a pessoa tenha – e perguntar-lhe se deixou de pensar, ou se pelo contrário a preocupação se avivou.
Quando pegamos numa folha de papel, podemos escrever nela uma carta de amor, uma equação de matemática ou uma denúncia, anónima ou não. Ao papel é indiferente.
Quando falamos da tendência de ver as coisas ao contrário – veja-se a moda de pensar que a adrenalina nos produz excitação – devíamos olhar para o que diz a ciência: é a excitação que produz a adrenalina.