quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

DOS ANIMAIS E DOS HOMENS


Nestes tempos abastardados onde os valores se dissolvem e os entendimentos se confundem, põe-se de moda o que é estultícia, riem-se os muitos do que não usam.

Foi assim que entrou no parece bem falar de animal como se fosse gente e de gente como se fosse peste. Esta moda, esta falácia agrava-se quando é propalada por recém-convertidos de má consciência. O dichote de mau gosto «quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães», atirado entre graçola e azedume, diz tudo.

Há, evidentemente, muita gente que gosta muito de animais, mesmo muito. Este gostar muito provoca e dilata a posse, perverte o próprio gostar. É o caso daqueles possuidores de bichos a que vestem gabardinas e põem chapéu. Ninguém lhes chama torturadores, mas chamo eu, que gostaria que tais actos fossem considerados maus tratos. São desvios, dir-se-á. Mas estes desvios e desequilíbrios provocam depois conversa fiada por parte de demagogos que esgrimem a falácia dos direitos dos animais, sem nos dizerem que deveres lhes correspondem. Coisa obtusa!

E não nos dizem como podem os ditos exercer s seus direitos!

Não maltratar os animais não é uma questão dos seus direitos, que os não podem exercer, não podem recusar o guizo, o boné, a gabardina; é uma questão de dignidade humana, de respeito pela vida, de rejeição da violência e da crueldade.

Como bem disse José Saramago, «um animal não pode defender-se; se te regozijas com a sua dor, desfrutas da tortura, gostas de ver como sofre esse animal … então não és um ser humano, és um monstro».

Para os que usam e abusam dos clichés e ideias prontas a usar que estão na moda, apenas porque estão na moda; que muito vociferam sobre os direitos dos animais, sem se perguntarem por que alguns não têm direito à vida, sendo assassinados e cortados em bife, só lhes desejo bom apetite na sua verde consciência.

Dizia a minha avó que a consciência era verde, veio um burro e comeu-a…

Histon, 20 DEZ 2018

THE THIRD EYE


Histon, 20 DEZ 2018

Muitos dos curiosos das coisas do oculto, que lêem sem espírito crítico livros excitantes da fancaria pseudo-esotérica, postos em moda, não se apercebem de quanto esses livros resultam de outros livros – uns bons e outros maus – mal assimilados e comercialmente reproduzidos. Estou a lembrar-me de um bestseller de 1956, que originalmente se intitulou The Third Eye, e recebeu em português o equívoco de Terceira Visão, sem que os falantes desta língua se interrogassem qual seria a segunda. Pouca exigência, como é evidente.

O autor, um inglês chamado Cyril Hoskins, que usava o pseudónimo Lobsang Rampa, nunca esteve no Tibete, mas escreveu uma vintena de livros a propósito que eram umas vezes cópia, outras continuações uns dos outros. Tudo o que neles conta que não seja disparate ou fantasia copiou ele da célebre obra autobiográfica do alpinista austríaco Heinrich Harrer, Sete Anos no Tibete, de que haveria mais tarde de ser realizado um filme. Este livro foi publicado, obviamente, antes do de Rampa (quatro anos antes) e, numa reedição de 1982 mereceu um prefácio e agradecimento do Dalai Lama. Mas tudo isto fica para outra altura, que o que interessa de momento é tratar do grande disparate contido no tal bestseller do Rampa.

Felizmente que os crentes naquela fantasia se limitaram a ler e sonhar, nada daquilo levando à prática, nomeadamente fazendo furos na testa, o que seria desastroso.

A nomenclatura portuguesa de Terceira Visão é um disparate e, como disparate, fica bem no disparate maior que é o livro. Apenas se justifica falarmos de duas visões: a física e a espiritual. A nomenclatura inglesa usada pelo Rampa de Terceiro Olho é um mau entendimento da parte dele. Tal nomenclatura – Terceiro Olho – usa-se no esoterismo metaforicamente, simbolicamente para designar visão interior, intuição, clarividência, realização espiritual. Nada disto se consegue com furos na testa. Os supostos órgãos físicos que medeiam estas capacidades são as glândulas hipófise e pineal. Já Descartes queria entender esta última como sede da alma. Mas que fique claro: o desenvolvimento psíquico – eis uma verdade de La Palice – só se consegue psiquicamente, não há mecânica que lhe valha.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A TESE MITICISTA


A tese miticista de Jesus, que tem como principal figura EARL DOHERTY, é descrita assim: «que não houve nenhum Jesus histórico digno desse nome; que o cristianismo começou com uma crença em uma figura espiritual e mítica; que os Evangelhos são essencialmente alegóricos e ficcionais, e que não é possível identificar somente uma pessoa por trás da tradição de pregação na Galileia».

Os principais livros de Doherty são «Jesus: Neither God nor Man»; «The Jesus Puzzle: Did Christanity Begin with a Mythical Christ?», ambos publicados no Canadá.

DA EXISTÊNCIA DE JESUS


Como já tenho escrito neste mesmo espaço, não tenho uma posição definitiva, nem uma opinião consistentemente demonstrável acerca da existência ou não do Jesus Histórico, mas inclino-me para a não existência.

Blavatsky sugeria – e Fernando Pessoa também – que o Jesus dos cristãos seria uma sobreposição a uma figura da literatura rabínica, Yesha ben Pandira, que teria vivido um pouco antes da nossa era. Outros autores falam de um certo Crestus, um messias essénio, dito também Mestre de Justiça, um pouco mais antigo ainda. Há também quem queira ver o Jesus dos cristãos como uma apropriação do mago Apolónio, que viveu precisamente no tempo que se atribui a Jesus.

Eu inclino-me para uma construção sincrética levada a cabo por um «colégio de sábios», a exemplo do que aconteceu no século XVII no respeitante a Christian Rosenkreuz.

Se têm curiosidade, interesse ou dever de investigar, pensem nisto: os principais críticos do século passado sobre a mitologia cristã surgiram na Alemanha e vieram precisamente da Universidade de Tubingen, a mesma de onde surgiram os célebres manifestos rosacruzes do século XVII.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O AVESSO E A CÂMARA ESCURA


Dito e escrito tenho eu, por variadas e bastas ocasiões, que todos temos uma forte propensão para analisar os problemas e os fenómenos com que tropeçamos de pernas para o ar (ou do avesso). Pode ser consequência de uma fragilidade genética. Bem sabemos que, quando olhamos algo, pelo efeito de câmara escura, a imagem projecta-se invertida na nossa retina. Então, para entendermos como convém, o nosso cérebro encarrega-se de a reorganizar, nem sempre bem, sobram muitos efeitos inconvenientes, ilusões de óptica. Sem dúvida que a pré-programação do cérebro nos presta bons serviços, e até podemos fazer-lhe alguns ajustes e introduzir-lhe aperfeiçoamentos. Pequenos, diminutos. muito limitados; pensemos por analogia nos ajustamentos que podemos fazer à Bios do nosso computador.

Pensar do avesso é que faz com que prevaleça a ideia – na Ciência e fora dela – que o cérebro criou a mente; eu penso o contrário. Claro que posso estar errado.

Também se crê que a mente é algo que entende e decide, e eu penso que não, que essas são funções da consciência. A consciência é a escrita de que a mente é o papel. A consciência pode distinguir o certo do errado, a mente não. Para a mente tudo é indiferente, aceita o que lhe dão, o que nela se inscreve. Quem duvide pode experimentar dizer a alguém: «não penses nisso» – uma preocupação qualquer que a pessoa tenha – e perguntar-lhe se deixou de pensar, ou se pelo contrário a preocupação se avivou.

Quando pegamos numa folha de papel, podemos escrever nela uma carta de amor, uma equação de matemática ou uma denúncia, anónima ou não. Ao papel é indiferente.

Quando falamos da tendência de ver as coisas ao contrário – veja-se a moda de pensar que a adrenalina nos produz excitação – devíamos olhar para o que diz a ciência: é a excitação que produz a adrenalina.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

DO CORAÇÃO Á BARRIGA UM PALMO MEDE A DISTÂNCIA


Para o bem e para o mal, a civilização que é costume referir por ocidental foi moldada numa lógica de crenças que chamaríamos abraâmica, com génese, portanto, no Antigo Testamento.
Dos três cultos – mosaísmo, cristianismo e islamismo –, tornou-se preponderante o cristianismo que, com as suas novas escrituras, que todavia não revogavam as antigas, apenas derrogavam a lei do olho por olho, propunham a nova lei do perdão e do amor.
É evidente que esta intenção nunca foi institucionalmente conseguida, mas isso são outros contos.
O que queremos dizer é que se estabeleceu uma dada cultura, cuja génese está no culto a uma figura que pode até não ter tido existência histórica, mas apenas fundacional e mítica. Todavia, o que é certo é que ter existido ou não ter existido não altera a realidade do molde da nossa civilização.
A este propósito não temos uma posição assente, por isso vamos partir da hipótese mais aceite, que Jesus possa ter existido, mas não relevando demasiado o grande handy cap de que Dele se não conhece nem se lhe atribui qualquer escrito; quanto se saiba ou julgue saber, chegou-nos por interpostas pessoas, que não tinham nos seus propósitos fazer História ou jornalismo, apenas desejavam conquistar e doutrinar prosélitos.
É assim que, não havendo comprovações inequívocas e independentes, tudo o que se diga vale pelo crédito que se dê a quem o diga, não pelo peso de quaisquer factos ou provas. Não será boa prática olvidar que toda a autoridade tem de residir nos factos, por muito merecimento que se atribua a quem testemunha, analisa ou discorre.
Nas habituais especulações que se fazem, esgrimindo textos antigos, referidos ou não como sagrados, há demasiado alinhamento com os prós e os contras, chegando-se ao abuso de, sem se provar a existência de Jesus, se afirmar que era casado com Maria Madalena, sem que tal esteja escrito em qualquer texto fundador, esgrimindo-se o argumento totalmente estapafúrdio que teria de ser, porque no tempo e no lugar pareceria mal não ser, coroando a argumentação com uma falsidade, afirmando que o Evangelho de Filipe – um dos apócrifos – relata que Jesus beijou Maria Madalena na boca. Presumidamente, um beijo hollywoodesco, uma tontice New Age. Esse evangelho não diz tal coisa, diz que beijava mas não diz onde, podia ser na mão, na testa, não sabemos. Mesmo que fosse na boca, naqueles tempos como hoje, nem todos os que se beijam na boca se casam. Que o digam os russos. No referido achado arqueológico, a seguir à palavra beijou está um buraco no documento, que os cinéfilos quiseram preencher de acordo com os seus apetites.
Importa que esclareçamos aqui que não alinhamos nem com as hostes que só vêem virtudes nos Evangelhos Apócrifos, dizendo que esses sim é que são verdadeiros, nem das daqueles para quem só os canónicos contam. Aliás, devemos sublinhar que não será por serem canónicos ou não canónicos que mudamos de lentes ou do alinhamento dos passos; o que nos interessa é entender, é saber dos passos que os seguidores das diversas hostes dão e porquê. Esta é a razão de não levarmos a sério os que pegam nos apócrifos para atirar à cara dos alinhados com as ortodoxias, nem destes o uso dos canónicos para condenar toda a heresia.
Separe-se então o que é a análise dos textos, as diversas leituras, as plurais plausibilidades, os enquadramentos históricos; aquilate-se do que são factos, vestígios, indícios e não se confunda com lendas, nem com coisas em que se acredita ou quer acreditar.
É evidente que não podemos ignorar o que se diz nos muitos textos apologéticos do cristianismo, mas encará-los como indiscutíveis, e sobretudo querer impô-los como a palavra de Deus, pode assentar bem a um pregador de domingo à procura de obediência cega ou dízimo certo, não a quem quer compreender o mundo, nem a quem prefere a espiritualidade ao alinhamento com qualquer religião instituída.
Parafraseando o falecido Padre Carreira das Neves, é abusivo falar da palavra de Deus, porque Deus não tem boca. Aquilo que muitos designam por palavra de Deus é a palavra de homens que se julgaram divinamente inspirados e pregaram no tempo e nas circunstâncias vividas o que a sua razão e sentimento permitiram.
Os que imaginam um Deus com uma magnitude incomensurável não podem depois querer atribuir-lhe ser autor de iniquidades e pequenez saídas da boca de tanto profeta e redactor de escrituras.
É por razões circunstanciais e inspirações avulsas e díspares, acrescidas pelo passar do tempo, que muito corrompe e tudo transforma, que se tem uma grande pluralidade de evangelhos e um número assaz significativo de contradições insanáveis. E as contradições nada têm a ver com uns serem canónicos e os outros não. Todos eles têm contradições, e os que querem parecer não as ter, sendo esgrimidos como a palavra de Deus, são verdadeiras antologias de contradições. Todo o Novo Testamento o é.
Mas voltamos sempre ao princípio: os Evangelhos não são reportagens, não são História, não são ensaios académicos. São instrumentos apologéticos virados, não para a razão, mas para a emoção; não procuram provar, mas inspirar. Apesar disto, que só uma vontade de cegueira não tem em conta, aparecem os que, instalados em uma qualquer barricada ou púlpito, seguem a lógica dos tempos que correm da pseudo novidade e da excitação, descobrindo a pólvora todos os dias.
Consequentemente, diríamos que não é bom que se embarque nos vapores tipo New Age, sobretudo não é de dar qualquer crédito a evangelistas fabricados pelo marketing como, entre outros, o fabricante de dólares Dan Brown, que acha que os Evangelhos Apócrifos é que são o verdadeiro cristianismo, onde se dá um papel de relevo à mulher, enquanto os canónicos são falsos, machistas e misóginos…
Que conclusões aberrantes. Que ideias tão falsas. São afirmações sem qualquer suporte documental, ou meramente lógico.
Nas cartas dos apóstolos, especialmente nas de Paulo, isso pode encontrar-se, não especificamente nos Quatro Evangelhos. Nestes até se pode deduzir o contrário do que diz o Brown.
É bom que se tenha consciência de que não existem documentos originais de coisa alguma neste campo; todos os textos se constituíram em cópias uns dos outros. Isto tem a ver com o facto de que no princípio não havia uma igreja cristã, mas sim uma pluralidade de seitas judaicas chamadas cristãs, cada uma com o seu pregador a produzir as suas homilias.
Os «ses» que constantemente se avançam são carentes de contraprova. Não se olha para a História pelo que poderia ter sido, pelo «se», mas pelo que foi, ou se julga que foi.
Com os textos – quer apócrifos quer canónicos –, produzidos como dissemos por cópia de cópia, temos de contar com o velho vício de que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto; não nos basta ver o que foi escrito, mas como foi escrito. Há que ter em conta, também, que os textos canónicos são em geral mais antigos e mais cuidados na linguagem do que os apócrifos e que estes contêm muito mais contradições, e sobretudo fantasias, do que os outros.
Quanto ao feminismo de uns e o machismo de outros, é de ir às lágrimas. Canónicos e apócrifos são o que teriam de ser, isto é, reflectem a sociedade em que foram gerados, que era machista, evidentemente. Mas o que mais espanta é os defensores dos apócrifos acharem-nos feministas, quando se caracterizam precisamente por um supino machismo e misoginia que ultrapassa em muito tudo o que de Paulo se possa dizer, chegando ao ponto de ver a mulher como um mal necessário. Escrito está em muitos deles que a mulher só entrará no Reino dos Céus se se fizer homem.
O cristianismo é, muitos o dizem, em termos ideológicos o que Paulo quis e em termos políticos o que Constantino determinou. A mitologia fundadora resulta de um processo histórico e serve para que se sinta a religiosidade um pouco mais acima do que a barriga. Os «ses» não servem nem a barriga nem o peito.




















quinta-feira, 22 de março de 2018

FALSA CULPA FALSO REMORSO


Durante muitos séculos, os pregadores cristãos mais assanhados diminuíram quanto puderam a elasticidade das mentes dos prosélitos pela indução de sentimentos de pecado, culpa e remorso, mormente no respeitante à sexualidade, que para eles só seria aceitável como um mal menor no cumprimento do decreto dos céus crescei e multiplicai-vos.

Da castidade à abstinência faltou-lhes a necessária coerência de acusar Deus da enorme crueldade de ter dado aos humanos o que aos anjos não quis dar. Ora, esta falsa moral não tem qualquer suporta em dizeres atribuídos a Jesus, que não propôs qualquer moral sexual. A doutrina destes pregadores enraivecidos gerava-se, portanto e apenas, nos seus próprios preconceitos. Ao longo dos séculos foram acrescentando e solidificando a doutrina da forma que acharam mais conveniente para controlar mentes medrosas e ignaras.

No cristianismo esotérico, é bom que se ressalve, a castidade que também aí se propunha, não se prendia com qualquer virtude moral, mas com práticas herdadas do Oriente, visando a obtenção de poderes mágicos.

Para desespero dos pregadores e vergonha dos catequistas, surge um dia o que para eles era o Diabo em figura de gente, expelindo enxofre e tudo: Freud. Ele pega no grande abcesso que a desumana pregação enchera, aplica-lhe o bisturi e diz: vejam, não tem vurmo, apenas baba de pregadores perversos!

Erich From, na sua “L’Art d’Aimer”, encontrou – com alguma razão, convenhamos – sectarismo sexual nas exposições de Freud. Dizia ali que Freud «supunha ser a sexualidade per se masculina, fazendo-o desconhecer o que há de específico na sexualidade feminina».

Talvez possamos dizer que o célebre complexo de castração freudiano tem aspectos francamente caricaturais, mas não é isto que obsta ao grande impacto revolucionário do método e da doutrina do ilustre médico de Viena.

Por ironia do destino, foi a sua sexta filha, Anna Freud, a herdeira e rectificadora dos trabalhos do pai, iniciando e desenvolvendo uma área específica da psicanálise, a infantil.

Pôde a doutrina freudiana pôr fim a remorsos e sentimentos de culpa, no concernente à sexualidade? Pôde, para uma grande maioria, mas não pôde, obviamente, para quem esses sentimentos negativos são a ara das próprias crenças. É por isso que ainda hoje

A monja deplora

o orgasmo da noite

que de manhã chora.

quarta-feira, 14 de março de 2018

PERTENCER SEM SER


Penso – e perdoem-me se estou enganado – que um grande número de reivindicados membros de organizações ditas iniciáticas, mormente rosacrucianas, maçónicas e martinistas, aderem a estas fraternidades equivocadamente. Pessoas – estou a generalizar – a quem move o exotismo, razões de vaidade mal dirigida e apetência por ganhos e poderes que não irão obter, salvo quando se integrem em organizações que se corromperam e deixaram de ser fraternais e iniciáticas para se transformarem em lóbis de entreajudas perversas e ilegítimas.

A regra fundamental da espiritualidade que preside às organizações iniciáticas autênticas é apelar aos membros que estejam no mundo mas não sejam do mundo.

Ora, não ser do mundo contradiz qualquer lobismo e estar no mundo exige contribuir para que ele seja melhor. Com ódio, não ficará melhor; com intolerância, não ficará melhor. Mas o facto é que as redes sociais, por exemplo, estão pejadas de manifestações de ódio e intolerância vindas de pessoas ditas espiritualistas e seguidoras de fraternidades. Estranha forma de ser fraternal.

O mundo melhora, com certeza, quando se leva a sério o juramento de servir a humanidade.

Servir a humanidade não é gostar dos nossos amigos, quando invariavelmente chamamos amigos aos que nos louvam e veneram. Não. A humanidade não é um jardim cheiinho de flores, dela fazem parte aqueles de que gostamos, aqueles que não gostamos e os que nos são indiferentes, todos credores da sua própria e inilidível dignidade, o que implica que até o pior dos criminosos seja respeitado. Tal respeito, como é evidente, não implica voltar a cara para o outro lado perante o erro, exige o nosso empenho em curar e ensinar. Tudo o mais será servir e o seu contrário, servir-se, é uma indignidade.

Reparem que até os que se exibem indignados não fazem mais do que servir-se, mostrando à cidade e ao mundo o quanto são excelsos. Vejam aqui o que se atribui a Jesus, nos Evangelhos, quando se refere aos fariseus, que querem que todos vejam o quanto são esmoleres.

Quem não entender isto, caso tenha avental, faça o favor de o pôr e ir lavar a loiça.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O ACIDENTADO OCIDENTE

Vendas Novas 5 FEV 2018

Nas sociedades do ocidente actual há palavras de envenenamento certo, como competitividade, transparência, competência e outras, mentalmente estruturantes, e há palavras tão risíveis que quase todos evitam, como patriotismo, honra, sagrado, santidade e similares. Gente instruída pelo modo de produção do ensanduichamento massivo tem muito cuidado com estas coisas. Graça tem – sobretudo se se diz que uma mulher é uma pecadora – a forma como se saboreia com agrado a palavra pecado, que se tornou sinónimo de festa, de liberdade.

Olhando para mim, diria que os santos nunca me convenceram nem os pecadores me arrepiaram. Não se é santo por decreto, e pecador também não. Se o povo o diz, mais desconfiado fico.

Andava eu no chamado Ciclo Preparatório e encontrei, na biblioteca da escola, um livro que, na altura, me marcou profundamente. Fiquei tão apaixonado por ele que, fazendo esticar os tostões, tive de adquirir um exemplar. Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio, um homem do Norte, enterrado como professor «Em Portalegre, cidade /Do Alto Alentejo, cercada /De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros…»

Li tantas vezes esse livro que cheguei a tê-lo de cor. Depois, como que o esqueci, mas o certo é que deixei de distinguir os santos dos pecadores. Estas coisas do subconsciente são muito perigosas.

Agostinho da Silva, comentando dizeres de Le Carré, a seu respeito, na novela Casa da Rússia, enaltecendo o seu aspecto de santo e de profeta bíblico, disse: é porque ele me viu de um certo ângulo, se me olhasse de um outro veria diferente.

É isso. O olhar, o ângulo, a perspectiva. Ao fim e ao cabo, a nossa projecção no exterior para ter dele a medida que nos sirva.

Muhammad terá dito em um dos seus hadîths que a tinta do sábio é mais sagrada do que a sangue do mártir, todavia, para as grandes massas, sempre o sangue foi mais apelativo do que o conhecimento, mormente na completude dos seus três graus, de que fala o nosso amigo José Flórido: saber, compreender e integrar.

Cada um de nós, que não se limite a comer, beber e procriar, é um campo de batalha de duas forças antagónicas, que podemos chamar o anjo e o diabo – o anjo que integra e o diabo que divide – ou, se se preferir outra nomenclatura, diremos os demónios do bem e os demónios do mal. Somos, afinal, como alguém disse, uma guerra civil. Quem vencerá? Aquele lado que privilegiarmos em armas e alimento.

A forma de entender a santidade no Ocidente sempre foi um enorme pecado. Não se entendeu na sua plenitude o gnoma sufi de vencer a carne sem perder a humanidade. Quando os monges, na sua perversa santidade, dilaceravam a carne para a vencer, não a venciam, apenas a ensinavam a tirar prazer da dor. O mesmo fazem os pecadores nos festins de sexo sadomasoquista. Santos e pecadores, as faces inseparáveis da mesma moeda.

Hoje, tão cheios de ciência que estamos, podemos ler no ADN a nossa herança genética. Está lá escrito como caçar mamutes (Carl Sagan), mas não há mamutes para caçar…

Ou seja, o dever ser do homem não é submeter-se, é vencer a sua guerra interna e arrumar na estante das recordações os Poemas de Deus e do Diabo.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

DESCONFORMIDADES

Vendas Novas, 4 FEV 2018

Um criacionista não explica, e um darwinista muito menos, por que os machos têm mamilos, excrescências completamente inúteis. Dirão coisas, mas é como se não dissessem, porque qualquer pensamento, qualquer entendimento condicionado por um modelo fica sempre limitado pelos seus parâmetros. Habitualmente, tentarão encaixar os factos no modelo em que acreditam, mesmo que não caibam.

Michael Shermer, em um dos seus escritos – ele que é um neodarwinista – avisou-nos sabiamente que às más perguntas sucedem sempre más respostas. Segundo ele, a pergunta que se deve fazer é por que as mulheres têm mamilos, sendo a resposta evidente e inegável é que as fêmeas de mamífero têm mamilos para poderem alimentar as crias.

Aquelas excrescências nos machos devem-se ao facto de o molde arquitectónico para cada espécie ser apenas um; a natureza não perde tempo com dois, quando resolve o problema com um. Azar dos machos, que ficam com as marcas do molde.

Podemos enquadrar tudo isto na ideia de que o princípio básico da vida é feminino.