sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A PROPÓSITO DO DESAPEGO

 

Vendas Novas, 22 de Dezembro de 2016

O que abaixo se diz necessita do seguinte pressuposto: todas as coisas são o que são, sem prejuízo de produzirem (ou serem até) o seu contrário. Penso que não há nada melhor para representar o que acabo de dizer do que o símbolo wu wei.

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Aceite o pressuposto, o que se pede a quem nos leia é a máxima distância em relação à crença e ao preconceito, porque o peso daquilo em que acreditamos faz-nos parecer real e inilidível o que apenas é uma perspectiva, como também é apenas uma perspectiva tudo quanto aqui ponhamos.

Pois bem, hoje em dia reina, como nunca antes, nos meios espiritualistas em geral, e, entre os esoteristas, provavelmente ainda mais, uma inflação desnecessária de conceitos, por vezes contraditórios, que diríamos casarem bem – que absurdo! – com o espírito do tempo, mundanamente traduzido no pronto a vestir, no pronto a comer, no pronto a pensar, no pronto a acreditar, no pronto a dizer, sequelas do new age, e é por tais sequelas que se pode entender a tentativa de substituir as velhas amarras das religiões instituídas, os seus dogmas, por amarras novas, agora aveludadas; crenças suaves, no espírito do «tá-se bem»; tudo amor e paz, incenso, pedras, pedrinhas e berloques. Temos de ser felizes, mesmo que o mundo à nossa volta seja infeliz, que haja dor e ranger de dentes, porque, pelo nosso lado, fechamos os olhos e meditamos. É o «Se», do Rudyard Kipling, em versão marijuana, fumado ou não.

Virá isto do tal desapego, tão louvado pelos espiritualistas que pairam muito acima da mundana inconsciência dos que nem sequer sabem das excelsas virtudes dum mantra bem vocalizado, nem das ladainhas recitadas em línguas exóticas?

Ou virá isto precisamente do seu contrário?

Será desapego, olharmos o sofrimento dos incréus como coisa do carma, como coisa alheia, sem nos apercebermos da responsabilidade de sermos um com todos os seres?

O carma em que não devemos interferir é cómodo. É cómodo, é confortável amar em abstracto, desapegadamente, com o nosso «eu superior» bem polido pela língua desatada, qual rebuçado que se chupa e nos consola. Nada de egos, claro, que isso é para gentes que não sabem disto…

E até nisto, na distinção de ego e eu, que constitui um grande arrepio para os psicólogos, os crentes das novas crenças se enaltecem a si próprios e se desapegam dos mais. Sobre isto dos egos e dos eus falaremos mais tarde, mas a consulta de um dicionário de Psicologia pode adiantar serviço. Por agora, vamos apegar-nos ao desapego, começando por dizer algo digno de La Palice: se de tudo nos quisermos desapegar, sempre sobrará um apego, o qual é o apego ao desapego.

Há quem justifique o desapego falando de maia. O mundo é meia, ilusão, nada a fazer. Outros justificam-se com o amor a Deus. Aqui, poder-se-ia perguntar: que Deus? O que resulta da projecção personificada de desejos e medos?

Amar a Deus e ser indiferente (ou desapegado) às suas presumidas criaturas não será demasiado desapego?

Amar a Deus como Pai e Criador sem considerar a sua criação, sem amar o irmão lobo e a irmã pedra leva-nos à antiga pergunta: qual o som produzido pela árvore que cai na floresta, quando ninguém ouve?

Não pomos em dúvida a importância da capacidade para o amor impessoal, que poderemos identificar como um estado de compassividade perante a vida. Tal estado é, digamos assim, um estado de eucaristia, não como dizem os cristãos, mas como resulta da etimologia da palavra: o bem da caritas, do amor.

Parece-nos evidente que o estado compassivo é o pábulo do amor incondicional, mas isto não nos leva a pressupor que o desapego seja a sua consequência. O grande apego que a ânsia da vida nos induz impor-se-á a qualquer outro desejo vital ou ilusório.

De desapego falavam os grandes poetas sufis que proclamavam o «eu sou tu», ao identificarem-se com a alma, ao identificarem-se com Deus nas suas núpcias místicas. Mas, não seria isto, em boa verdade, um enorme apego à própria ideia de Deus?

E que amor incondicional e puro nos trouxe o islão com o só apego ao jugo divino, no seu tradicional apelo à submissão incondicional a uma vontade inconsútil plasmada em dogmas?

O desapego a tudo com a justificação de que só Deus é Deus e tudo mais é nada e, como nada, descartável e desprezível, leva a consequências dolorosas, muitas delas bem conhecidas. Pode levar-nos ao degolar é preciso, viver não é preciso, que é o despego aos outros. Explodir é preciso, viver não é preciso, que é o desapego à própria vida. E em tudo isto a perversão do amor através do despego.

Sublinhemos esta ideia: Não conduzirá o desapego, não terá como consequência necessária a indiferença ao sofrimento alheio, à insensibilidade, ou mesmo à crueldade?

Quem se der ao trabalho de consultar as actas da inquisição verá coisas deste teor: «…com muito amor e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo demos mais uma volta ao torniquete…»

Desapegados dos gritos das vítimas, desmembravam-nas por amor incondicional, impessoal e extraterreno. Os ouvidos impessoalizados não ouviam o apelo: «que fizeste com o teu irmão?»

Quando o desapego é muito, nem às orelhas temos respeito.

ABDUL CADRE

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A FLORESTA PETRIFICADA

 

SEM canhão não há negócio, sem povo não temos guerra, sem mentira não há soldados, sem soldados enferrujam os canhões e o negócio entra em ruina…

A mentira faz muita falta, é o que é.

Ela chegou um dia, assim como quem não quer a coisa, àquele povoado perdido no taciturno do tempo, onde os habitantes eram muito ingénuos, tinham aquela ingenuidade doentia que serve para esconder a perversidade que não parece bem mostrar.

Logo que chegou, cobriram-na de flores, tal fosse defunto. Ou fosse noiva. O padre-cura, no cumprimento dos deveres de ofício, naturalmente sagrado, ainda esboçou em acanhado murmúrio um aviso de pecado, venial, evidentemente, a ver se as gentes se encolhiam; o mestre-escola exclamou cuidado e o barbeiro fez-lhe um belo penteado. À mentira, não, ao mestre-escola, como devem perceber.

Portanto, a mentira estava linda de morrer, mas o louco que andava por ali ficou indiferente, ria apenas da forma habitual com que sempre ria, mesmo nos velórios e nos enterros.

Passado algum tempo, já o sol se afundava no horizonte, chegou a verdade cheiinha de cuidados e arrepios. Aí, toda a gente se assustou, o padre benzeu-se, o mestre-escola meteu baixa por doença e o barbeiro escondeu os pentes e pôs-se cuidadosamente a afiar as navalhas.

O povo olhou para a forasteira e sentiu a sua presença como uma provocação. Indignado, vociferou, juntou-se em magotes e cobriu a verdade de excrementos, para que se parecesse com a mentira tanto quanto possível.

Indiferente, o louco ria.

A verdade, que já ouvira dizer que se parecia com o azeite, que flutuava, querendo escapar à turba enfurecida, atirou-se à água, mas fui ao fundo.

Sem angústias, o povo riu como o louco nunca poderia, e prosseguiu na sua vida previsível e domesticada.

O louco sentiu-se acanhado no riso que lhe era próprio, ele que conseguia rir mesmo quando os vizinhos lhe batiam para esconjurar o medo e dar uso aos varapaus. Foi a única vez que se sentiu triste, mas riu.

Esta história faz pouco sentido nos dias de hoje, não é?

Claro. É que as coisas já não são bem assim: a verdade e a mentira, agora, equivalem-se. Equivalem-se, é como quem diz, porque tudo depende do proveito que dá e esta é a razão pela qual muita gente chama mentira à verdade e verdade à mentira, conferindo apenas pelas cotações de mercado, pois que o corolário do pós-moderno só poderia ser o pós-verdade.

Talvez haja ainda dos tais loucos que riem indiferentes, mas não sabemos. Havendo, escondem-nos em celas acolchoadas e o mais que lhes permitem é vaguear em corredores cheirando a éter. E não há varapaus. Quando muito, recorre-se a choques eléctricos.

A vida está muito liofilizada, não está?

Nas sociedades modernas mais progressivas os mentores do povo distinguem-se muito bem dos de antigamente. Os de agora usam rostos bem escanhoados e um sorriso indefinido, tipo hospedeira de bordo, que faz lembrar a indiferença do louco. Os tais de antigamente – e os que apesar de tudo ainda há – tinham bigodes façanhudos e o rosto sempre crispado. O certo, porém, é que quer uns quer outros mais não fazem que espremer o povo para que renda ou mandá-lo ir morrer longe em benefício da tesouraria, porque povo contra povo foi ontem e é hoje o negócio dos negócios.

E sabem que mais? Não vale a pena nos sentirmos tristes nem constrangidos: o povo gosta. Como sabem, o gosto é um hábito. Mesmo que diga que não, mesmo que jure, o povo gosta de ser enganado e gosta de guerra, porque a guerra é uma grande oportunidade de, numa enorme orgia, convertermos o ódio em balas, desopilar o fígado e cobrir de excrementos o que nos desagrada e o que nos amedronta; de darmos vivas ao dono e atirar para a vala comum aqueles que cobrimos de defeitos, pensando que assim não são parecidos connosco. Negamos-lhes a humanidade para que o ódio escorregue melhor e medre bem.

Tenho receio das celas acolchoadas? Tenho. Mas não consigo parar de rir.

 

ABDUL CADRE

POVO, OVO OU ÚTERO

V. Novas, 19 de Dezembro de 2016

É muita a pesporrência dos que se dão ares de superioridade por virtudes de berço, quando berço é coisa que se descarta, porque se cresce. Mas a falsa humildade dos que, bem anafados, se dizem vindos do povo, filhos do povo faz muita comichão no ouvido.

Para fazer bom ambiente, eu podia falar das virtudes do povo, ou desatar a dizer: eu também sou povo. Mas não me dá jeito. Podia até – e isso fazia-me parecer mais alto – dizer que tenho pena do povo, ou que sou amigo do povo, porque afinal também tenho pena dos gatos sem almofadinha de veludo e dos cães abandonados, que mendigam osso, mas não estou para aí virado. E não estou, antes de mais, por esta constatação simples: os que são amigos do povo lucram, enquanto eu perco. Não se trata de virtude minha nem de amarga lucidez, é apenas feitio. Sei que os amigos dizem que eu tenho um coração terno, mas não sou nem quero ser virtuoso, pelo menos da forma tortuosa e farisaica que vejo nos amigos do povo.

Os vendedores de ilusões dão ao povo codificada e pronta toda a crença necessária à perpetuação dos enganos, porque a mentira é do povo o alimento ideológico por excelência. O povo aprendeu cedo a odiar a verdade e lapida sem qualquer constrangimento quem lha queira dizer.

A verdade, sabe-se, dói mais do que tintura em ferida aberta, e também se sabe que a mentira anestesia, acalma e dá o prazer do sono e do sonho inconsequente, que é o estado que mais se parece com a felicidade e com a bebedeira.

Para que não se instalem dúvidas nas formatações comuns do pronto a pensar, que fique claro que estamos a chamar povo àquele estado indiferenciado da humanidade, tornado amorfo pelo hábito do redil e pela dinâmica de grupo. Isto sem descurarmos que povo é ovo ou útero onde tudo o que é ideia (ou falta dela) se fermenta (ou apodrece), germina ou morre na raiz. Para a palavra povo podíamos até inventar uma etimologia: pelo ovo. Mas vê-lo como útero é bem mais apropriado. Em sentido político bem desalinhado, trata-se do pábulo dos grandes interesses e a desculpa de todos os mandos e desmandos. Quando o povo se ilude de poder, é alienação certa pela ditadura do homem-massa, sendo do seu seio que logo sai o chicote que o reconduz à inércia que convém à ordem do grémio da pastorícia.

Diz-me a vida que só é amigo do povo quem lhe quer cavalgar as costas. Eu não quero ir a cavalo, prefiro andar a pé, por causa do colesterol. Sem companhia. Porque quem me acompanhe ou está enganado ou quer enganar-me. Eu não sou de companhia, não sou gato, não sou cão, nem tenho tendência para pastor.

ABDUL CADRE