Vendas Novas, 22 de Dezembro de 2016
O que abaixo se diz necessita do seguinte pressuposto: todas as coisas são o que são, sem prejuízo de produzirem (ou serem até) o seu contrário. Penso que não há nada melhor para representar o que acabo de dizer do que o símbolo wu wei.
Aceite o pressuposto, o que se pede a quem nos leia é a máxima distância em relação à crença e ao preconceito, porque o peso daquilo em que acreditamos faz-nos parecer real e inilidível o que apenas é uma perspectiva, como também é apenas uma perspectiva tudo quanto aqui ponhamos.
Pois bem, hoje em dia reina, como nunca antes, nos meios espiritualistas em geral, e, entre os esoteristas, provavelmente ainda mais, uma inflação desnecessária de conceitos, por vezes contraditórios, que diríamos casarem bem – que absurdo! – com o espírito do tempo, mundanamente traduzido no pronto a vestir, no pronto a comer, no pronto a pensar, no pronto a acreditar, no pronto a dizer, sequelas do new age, e é por tais sequelas que se pode entender a tentativa de substituir as velhas amarras das religiões instituídas, os seus dogmas, por amarras novas, agora aveludadas; crenças suaves, no espírito do «tá-se bem»; tudo amor e paz, incenso, pedras, pedrinhas e berloques. Temos de ser felizes, mesmo que o mundo à nossa volta seja infeliz, que haja dor e ranger de dentes, porque, pelo nosso lado, fechamos os olhos e meditamos. É o «Se», do Rudyard Kipling, em versão marijuana, fumado ou não.
Virá isto do tal desapego, tão louvado pelos espiritualistas que pairam muito acima da mundana inconsciência dos que nem sequer sabem das excelsas virtudes dum mantra bem vocalizado, nem das ladainhas recitadas em línguas exóticas?
Ou virá isto precisamente do seu contrário?
Será desapego, olharmos o sofrimento dos incréus como coisa do carma, como coisa alheia, sem nos apercebermos da responsabilidade de sermos um com todos os seres?
O carma em que não devemos interferir é cómodo. É cómodo, é confortável amar em abstracto, desapegadamente, com o nosso «eu superior» bem polido pela língua desatada, qual rebuçado que se chupa e nos consola. Nada de egos, claro, que isso é para gentes que não sabem disto…
E até nisto, na distinção de ego e eu, que constitui um grande arrepio para os psicólogos, os crentes das novas crenças se enaltecem a si próprios e se desapegam dos mais. Sobre isto dos egos e dos eus falaremos mais tarde, mas a consulta de um dicionário de Psicologia pode adiantar serviço. Por agora, vamos apegar-nos ao desapego, começando por dizer algo digno de La Palice: se de tudo nos quisermos desapegar, sempre sobrará um apego, o qual é o apego ao desapego.
Há quem justifique o desapego falando de maia. O mundo é meia, ilusão, nada a fazer. Outros justificam-se com o amor a Deus. Aqui, poder-se-ia perguntar: que Deus? O que resulta da projecção personificada de desejos e medos?
Amar a Deus e ser indiferente (ou desapegado) às suas presumidas criaturas não será demasiado desapego?
Amar a Deus como Pai e Criador sem considerar a sua criação, sem amar o irmão lobo e a irmã pedra leva-nos à antiga pergunta: qual o som produzido pela árvore que cai na floresta, quando ninguém ouve?
Não pomos em dúvida a importância da capacidade para o amor impessoal, que poderemos identificar como um estado de compassividade perante a vida. Tal estado é, digamos assim, um estado de eucaristia, não como dizem os cristãos, mas como resulta da etimologia da palavra: o bem da caritas, do amor.
Parece-nos evidente que o estado compassivo é o pábulo do amor incondicional, mas isto não nos leva a pressupor que o desapego seja a sua consequência. O grande apego que a ânsia da vida nos induz impor-se-á a qualquer outro desejo vital ou ilusório.
De desapego falavam os grandes poetas sufis que proclamavam o «eu sou tu», ao identificarem-se com a alma, ao identificarem-se com Deus nas suas núpcias místicas. Mas, não seria isto, em boa verdade, um enorme apego à própria ideia de Deus?
E que amor incondicional e puro nos trouxe o islão com o só apego ao jugo divino, no seu tradicional apelo à submissão incondicional a uma vontade inconsútil plasmada em dogmas?
O desapego a tudo com a justificação de que só Deus é Deus e tudo mais é nada e, como nada, descartável e desprezível, leva a consequências dolorosas, muitas delas bem conhecidas. Pode levar-nos ao degolar é preciso, viver não é preciso, que é o despego aos outros. Explodir é preciso, viver não é preciso, que é o desapego à própria vida. E em tudo isto a perversão do amor através do despego.
Sublinhemos esta ideia: Não conduzirá o desapego, não terá como consequência necessária a indiferença ao sofrimento alheio, à insensibilidade, ou mesmo à crueldade?
Quem se der ao trabalho de consultar as actas da inquisição verá coisas deste teor: «…com muito amor e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo demos mais uma volta ao torniquete…»
Desapegados dos gritos das vítimas, desmembravam-nas por amor incondicional, impessoal e extraterreno. Os ouvidos impessoalizados não ouviam o apelo: «que fizeste com o teu irmão?»
Quando o desapego é muito, nem às orelhas temos respeito.
ABDUL CADRE