sexta-feira, 29 de outubro de 2021

DEUS E O HORIZONTE

 

O problema da espiritualidade e da religiosidade dos nossos dias é haver quem queira espartilhar o sentir, o viver e o saber (e haver quem aceite isso) com a tal letra que mata.

Tudo começa por se pegar em textos consagrados pelos crentes iniciais e chamar-lhes sagrados. Se calhar até têm razão, porque, etimologicamente falando, sagrado é aquilo em que se não pode tocar sem perigo. Era o caso, segundo a lenda, da arca da aliança. Talvez assente nisto a razão de a Bíblia ter estado registada no Index durante séculos.

Quando alguns fiéis de certas religiões instituídas me dizem que os seus livros são a palavra de Deus, respondo-lhes com uma frase do falecido Padre Carreira das Neves: não podemos falar na palavra de Deus, porque Deus não tem boca. Então, esses textos são o quê? No meu entender, são inspirações de místicos do passado que se fizeram respeitar e seguir por gente carente de uma realidade maior que fosse um bálsamo à insensatez do mundo. Mas as explicações possíveis desses místicos só podiam ser dadas na linguagem dessas mesmas pessoas carentes, e no jeito desses mesmos místicos, o que impossibilitava ser a voz de Deus. Podemos querer ver nessas mensagens símbolos intemporais, mas o facto é que estão datadas e por isso corroídas pelo que o tempo faz a todas as coisas. E esta corrosão do tempo é uma necessidade básica da renovação das coisas e da vida na Terra. A Humanidade existe por que a morte possibilita que permanentemente se renove. É a perenidade relativa resultante do facto de que a família dura mais do que o indivíduo, a tribo mais do que a família, a nação mais do que a tribo e assim sucessivamente.

A Humanidade poderá querer encontrar Deus, mas não o poderá fazer lendo os textos que o tempo matou. Aí só poderá saber o que já foi, não o que é e muito menos o que será. O que nos motiva a viver é a imprevisibilidade da vida; o que nos motiva a saber é a dúvida.  O problema de se querer caminhar para Deus é que Ele é como o horizonte: damos em passo em direcção ao horizonte e o horizonte mantém a distância, afasta-se precisamente na medida do nosso passo. E, no entanto, é porque caminhamos que os caminhos se fazem, mas todos os caminhos são pessoais e intransmissíveis. Nenhum guru, nenhum mestre, nenhum profeta, podem ter descoberto o caminho que almejaram, não o nosso. Segui-los é tropeçar e não encontrar o nosso, é perdermo-nos em caminhos estrangeiros. Ninguém nasce ou morre por nós. Nós só chegamos ao Porto chegando ao Porto, mas não há nenhum certificado de garantia de que o nosso caminho é chegar ao Porto.

Mas não nos iludamos sobre os quesitos da nossa existência, ser parido não é a condição suficiente de vivermos porque, como tão bem soube expressar a Natália Correia, a gente só nasce quando somos nós que temos as dores.