Não sei se assistiram – foi há muito tempo – a um interessante debate televisivo entre duas pessoas que sempre li com muito interesse, Padre Carreira das Neves e José Saramago. O primeiro, teólogo de referência, o segundo escritor laureado com o Nobel, ambos já falecidos. De Saramago, sabe-se perfeitamente como considerava a Bíblia um manual de maus costumes; de Carreira das Neves, sabia-se como defendia que a Bíblia não deve ser tomada à letra. Ora, o que nos mostrou a vantagem do Saramago foi o argumento: pois bem, mas não podemos ignorar a letra, não podemos ignorar o que está escrito com desculpas de simbólico.
É esta a minha posição.
Quando o Antigo Testamento conta a história de Abraão a fazer a mulher passar por irmã para a emprestar ao Faraó, podemos até atender a quais eram os costumes da época, em que as mulheres eram coisas, mas querer ver qualquer símbolo ou bom exemplo, não é preciso gastar latim. A conversa dos teólogos será sempre pôr açúcar no fel a ver se o estômago aguenta.
Das muitas contradições e iniquidades de uma literatura em que tantos insistem em chamar escrituras sagradas, pode-se entender muita coisa, dar como bom é que não. Percebe-se que é uma panela mexida por muitas mãos, com ideias que se negam a si próprias e que nem simbolicamente se pode admitir que defenda o critério do bem. O Antigo Testamento é arrepiante, uma cadeia de ignomínias, guerras, genocídios, traições violações, embustes, hipocrisia. Podemos dizer que será um bom levantamento psicológico dos homens daqueles tempos, falar de palavra de Deus é uma heresia. O doirar da pílula dos teólogos, uma hipocrisia.
Diríamos o Novo Testamento não é tanto assim. Será uma questão de grau. Mas querer chamar Deus a um homem que amaldiçoa uma figueira que não dá frutos, porque não é a época de os dar, é de cabo de esquadra.
Podemos dizer que toda a bondade dos Evangelhos se encerra num desejo simples: não negar a Lei, isto é, derrogar apenas a lei de Talião, substituir o dente por dente pela doutrina do amor e do perdão, que levaria inclusive ao tal dar a outra face e amar o próprio inimigo. Tudo mais que por lá anda, foi dito e redito anteriormente por outros. Até um dos textos mais bonitos, o Sermão da Montanha, vamos encontrar em Buda, que viveu quinhentos anos antes.
Uma das coisas mais contraditórias, quando os crentes chamam a Jesus Príncipe da Paz é o famoso capítulo 22 de Lucas:
A hora do combate – 35Jesus perguntou aos Apóstolos: «Quando vos enviei sem bolsa, sem sacola, sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?» Eles responderam: «Nada». 36Jesus continuou: «Agora, porém, quem tiver bolsa deve tomá-la, como também uma sacola; e quem não tiver espada, venda o manto para comprar uma. 37Porque Eu declaro-vos: É preciso que se cumpra em Mim a palavra da Escritura: “Ele foi incluído entre os malfeitores”. E o que foi dito a meu respeito vai realizar--se». 38Eles disseram: «Senhor, aqui estão duas espadas». Jesus respondeu: «Chega»!
Esta passagem, válida para portugueses e brasileiros – a edição é a mesma – está na página 1507 da Edição Pastoral das Edições Paulus, Lisboa e São Paulo.
Podem encontrar em publicações apologéticas as mais imaginativas interpretações, mas o que está escrito está escrito e a febre, quando é muita, leva ao delírio.
Uma espada é uma espada, é uma espada, é uma espada.
Gertrud Stein dizia uma rosa é uma rosa, é uma rosa. é uma rosa.