terça-feira, 19 de maio de 2020

O CONTEXTO E O DESCONTEXTO


Não sei se assistiram – foi há muito tempo – a um interessante debate televisivo entre duas pessoas que sempre li com muito interesse, Padre Carreira das Neves e José Saramago. O primeiro, teólogo de referência, o segundo escritor laureado com o Nobel, ambos já falecidos. De Saramago, sabe-se perfeitamente como considerava a Bíblia um manual de maus costumes; de Carreira das Neves, sabia-se como defendia que a Bíblia não deve ser tomada à letra. Ora, o que nos mostrou a vantagem do Saramago foi o argumento: pois bem, mas não podemos ignorar a letra, não podemos ignorar o que está escrito com desculpas de simbólico.

É esta a minha posição.

Quando o Antigo Testamento conta a história de Abraão a fazer a mulher passar por irmã para a emprestar ao Faraó, podemos até atender a quais eram os costumes da época, em que as mulheres eram coisas, mas querer ver qualquer símbolo ou bom exemplo, não é preciso gastar latim. A conversa dos teólogos será sempre pôr açúcar no fel a ver se o estômago aguenta.

Das muitas contradições e iniquidades de uma literatura em que tantos insistem em chamar escrituras sagradas, pode-se entender muita coisa, dar como bom é que não. Percebe-se que é uma panela mexida por muitas mãos, com ideias que se negam a si próprias e que nem simbolicamente se pode admitir que defenda o critério do bem. O Antigo Testamento é arrepiante, uma cadeia de ignomínias, guerras, genocídios, traições violações, embustes, hipocrisia. Podemos dizer que será um bom levantamento psicológico dos homens daqueles tempos, falar de palavra de Deus é uma heresia. O doirar da pílula dos teólogos, uma hipocrisia.

Diríamos o Novo Testamento não é tanto assim. Será uma questão de grau. Mas querer chamar Deus a um homem que amaldiçoa uma figueira que não dá frutos, porque não é a época de os dar, é de cabo de esquadra.

Podemos dizer que toda a bondade dos Evangelhos se encerra num desejo simples: não negar a Lei, isto é, derrogar apenas a lei de Talião, substituir o dente por dente pela doutrina do amor e do perdão, que levaria inclusive ao tal dar a outra face e amar o próprio inimigo. Tudo mais que por lá anda, foi dito e redito anteriormente por outros. Até um dos textos mais bonitos, o Sermão da Montanha, vamos encontrar em Buda, que viveu quinhentos anos antes.

Uma das coisas mais contraditórias, quando os crentes chamam a Jesus Príncipe da Paz é o famoso capítulo 22 de Lucas:

A hora do combate – 35Jesus perguntou aos Apóstolos: «Quando vos enviei sem bolsa, sem sacola, sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?» Eles responderam: «Nada». 36Jesus continuou: «Agora, porém, quem tiver bolsa deve tomá-la, como também uma sacola; e quem não tiver espada, venda o manto para comprar uma. 37Porque Eu declaro-vos: É preciso que se cumpra em Mim a palavra da Escritura: “Ele foi incluído entre os malfeitores”. E o que foi dito a meu respeito vai realizar--se». 38Eles disseram: «Senhor, aqui estão duas espadas». Jesus respondeu: «Chega»!

Esta passagem, válida para portugueses e brasileiros – a edição é a mesma – está na página 1507 da Edição Pastoral das Edições Paulus, Lisboa e São Paulo.

Podem encontrar em publicações apologéticas as mais imaginativas interpretações, mas o que está escrito está escrito e a febre, quando é muita, leva ao delírio.

Uma espada é uma espada, é uma espada, é uma espada.

Gertrud Stein dizia uma rosa é uma rosa, é uma rosa. é uma rosa.

DA HISTORICIDADE OU NÃO DE JESUS


Para o estudo do cristianismo e sua implicação na formação da cultura ocidental não é tão importante assim provar-se que a figura de Jesus é um facto histórico, como querem teólogos e crentes. Ser uma criação de um colégio de «sábios», que a meu ver é muito provável, em nada altera o impacto histórico que tal ideologia social, política e religiosa teve no mundo.

Todavia, o que seria sobremaneira importante aquilatar era da positividade ou negatividade da implementação do Cristianismo ao longo destes dois milénios. Não refiro utilizarmos o se, de que a contraprova só cabe na imaginação. É sabermos dos prejuízos e benefícios atribuíveis a algo que foi imposto à humanidade a ferro e fogo. Há poucos estudos a propósito, porque tratar-se de tal envolve demasiada paixão desenvolvida em dois campos antagónicos irredutíveis. Penso que para o crente é impossível alhear-se do que crê e lhe cega qualquer entendimento; para o que se opõe a qualquer tipo de crença, a sua oposição é afinal uma crença em si mesma, chamada de descrença, que, dado o peso da razão, pode não cegar como aos outros cega, mas de algum modo obnubila.

Com a hipótese de mitificação em mente, é bom ter-se em consideração que isto de se usar uma figura fictícia para a criação de algo de relevante e de contornos místicos não é caso único, por mais que Jesus eventualmente aqui se não enquadre, mas eu creio que as possibilidades de se enquadrar são muito fortes. Quero lembrar, especialmente aos que bebem das águas do esoterismo, que Christian Rosenkreuz, patrono do rosacrucianismo moderno, não teve existência histórica, foi uma criação mítica do Círculo de Tübingen, que funcionava na universidade do mesmo nome, figura promovida nos célebres manifestos de Cassel, do século XVII. Deste círculo faziam parte, entre outros, Valentim André, Wilhem von Wense, Tobias Hess, Christophe Besold e John Arndt.

Mitos e ficções são o sal do entendimento, ou dos entendimentos. Podemos referir-nos a coisas bem mais recentes, por exemplo, o mitificado Fulcanelli, tomado como autor das Mansões Filosofais e O Mistério das Catedrais. Fulcanelli foi um pseudónimo atribuído ao pintor e alquimista Jean-Julien Champagne, que morreu muito novo. O nome Fulcanelli foi adoptado por um grupo de alquimistas, de que Champagne fez parte, conhecido por grupo Schwaller, que integrava vários alquimistas contemporâneos, para além do referido pintor, mas cujos trabalhos mais importantes foram produzidos pelo livreiro e erudito Pierre Dujols de Valoir, considerado o mestre do grupo, que havia sido fundado pelo egiptólogo René Schwaller de Lubicz, falecido em 1926. Do mítico Fulcanelli, tudo o que à edição foi dado saiu da pena do seu divulgador, que prefaciou os respectivos livros, Eugénio Canseliet, um alquimista que se dizia discípulo de Fulcanelli, que ninguém viu, e que acabou por declarar ser ele quem redigiu os livros atrás referidos com base em apontamentos do seu mestre.

Se não fosse abusivo, podíamos considerar que as ideias estão sempre em luta, em contradição, isto é, em guerra. E que talvez haja mentiras que se propalam para proteger a verdade. Assim a modos como dizia o Churchill: “Em tempo de guerra a verdade é tão preciosa que precisa de estar sempre protegida por uma escolta de mentiras.” Também os alquimistas assim procederam.

Da invenção do cristianismo por Paulo de Tarso até à sua aquisição por Constantino o que se efabulava visava proteger qualquer verdade? Creio que não. Tudo foi política, tudo foram estratégias de poder, tudo objectivou colocar a alma em cativeiro.

A ser assim, Jesus não passa de um álibi para a rendição das massas a um Deus despótico e cruel.

Abdul Cadre