sábado, 7 de março de 2020

SUBSÍDIOS PARA UMA PSICANÁLISE PAULINA - I


Nos finais dos anos 70, ou princípios de 80, comprei numa banca de rua um livro com um título chamativo A PSICANÁLISE DOS EVANGELHOS, de Françoise Dolto e Gérard Sévérin. A coisa prometia. Mas não cumpriu. Ela católica e ele formado em Teologia (entre outras coisas) borraram a pintura. O livro é chato e comprido e faria dores de cabeça ao coitado do Freud

Ficou-me um apetite: fazer a psicanálise, não dos Evangelhos, mas de Paulo de Tarso. Colhi muitos apontamentos, que acabei por não organizar, e o livro que atrás referi faz-me ter uma preocupação: não quero fazer em sentido contrário o trabalho prosélito daqueles autores. No meio de todos os apontamentos, deparei-me com algo que não batia certo, sendo os discursos epistolares de Paulo arrepiantes – para não usar termo mais cru – aquele algo era sublime, um poema magnífico que aparece na Primeira Carta aos Coríntios (capítulo 13, versículos 1 a 13). Aquela apologia do amor parecia-me tão incompatível com tudo o mais que fiquei com a suspeita de poder tratar-se de uma interpolação, um dos acrescentos comuns na literatura religiosa.

Não deixei de pensar que seria útil fazer a tal psicanálise de Paulo, e delineei até os pontos de partida que caracterizariam o fundador da religião chamada de cristianismo, a que seria mais apropriado chamar paulismo. Que pontos seriam esses?

Primus: o seu ódio manifesto e irredutível a Pedro

Secundus: o desprezo pela mulher

Tertius: o repúdio de todos os outros apóstolos, excepto Barnabé, celibatário como ele.

Quartus: a sua pregação contra o casamento

Acrescente-se a tudo isto uma vaidade incomensurável, sempre precedida de declarações de humildade, e um despeito e inveja por todos os que pregassem à sua revelia. Fala de si próprio como o Apóstolo de Cristo, como se os outros o não fossem. A grande constante nas várias cartas é a frase repetida até à exaustão «irmãos, sede como eu».

Este eu, eu, eu deveria ser a alegria dos cultores do esoterismo de fancaria, mas provavelmente nunca deram por isso; isto assentaria bem no discurso new age, que usa como cognome do mafarrico o mal-afamado ego. Estes crentes das mistelas religiosas diriam do alto da sua pesporrência: são coisas do ego, absolva-se o réu.

Bom, enquanto não faço a psicanálise deste sujeito, para saber das razões das suas fraquezas psíquicas e comportamentais, como a condenação do casamento, a inveja dos outros apóstolos e o ódio a Pedro, atenhamo-nos ao seu papel de fundador do cristianismo, a que deveríamos chamar paulismo. A própria Igreja Católica reconhece a existência e proeminência de uma doutrina paulina, o que não reconhece é que essa doutrina seja na verdade não só o substrato de todo o cristianismo, mas o seu ADN e metabolismo.

A grande perversidade paulina, capaz de explicar a crueldade da igreja ao longo dos tempos resulta de doutrinações como esta: «A justiça de Deus realiza-se através da fé em Jesus Cristo, para todos aqueles que acreditam. E não há distinção: todos pecaram e estão privados da glória de Deus, mas tornam-se justos gratuitamente pela sua graça, mediante a libertação realizada por meio de Jesus Cristo». Ora, como diria Saramago, leia-se o que está escrito, porque interpretações simbólicas são outra coisa. E o que está escrito é que quem acredita em Jesus é justo, quem não acredita não é. É evidente que isto é suficiente para inocentar Torquemada e canonizar o diabo de saias conhecido como Madre Teresa de Calcutá.

Passa despercebido a muito boa gente que os textos fundadores mais antigos do cristianismo, e os menos falsificados, interpolados e acrescentados são as epístolas de Paulo. Os fundamentos do cristianismo estão todos nessas cartas; e essas cartas são claras e precisas, não contêm metáforas nem parábolas, são instruções directas às seitas judaicas que constituíram o cristianismo. Nas suas instruções, Paulo diz com frequência proíbo e ordeno.

A carta mais importante é dirigida aos romanos, carta única de Paulo a uma comunidade que não chegou a visitar. É nesta que se encontra a sua doutrina da fé e da salvação, que ainda hoje vigora tal como ele a delineou.

Uma coisa é certa, penso que Paulo tinha uma grande virtude: duvidava da sua própria doutrina, Se não, vejamos, na primeira Carta aos Coríntios, capítulo 15, versículos 12 @ 18, fugindo-lhe a boca para a verdade, como diria Freud, escreveu o seguinte: «Ora se nós pregamos que Cristo ressuscito dos mortos, como é que alguns de vós dizem que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo também não ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que tendes. Se os mortos não ressuscitam, então somos testemunhas falsas de Deus, pois testemunhamos contra Deus, quando dizemos que Deus ressuscitou a Cristo. Pois se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E, desse modo, aqueles que morreram em Cristo estão perdidos. Se a nossa esperança em Cristo é somente esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens»