sábado, 25 de janeiro de 2020

A PROPÓSITO DE SER LIVRE

25 JAN 2020


Um pássaro que canta na sua gaiola é livre na só medida em que não deixa de ser pássaro, mas não é livre se é por voar que se sente pássaro. Também não será livre se a condição de pássaro lhe desagradar e preferisse ser gato.

O facto inexorável é que toda a liberdade é limitada à condição em que se existe.

Diz-me a família lá do Canadá: «estão 40 graus negativos, não se pode sair à rua». Presumidamente, essa liberdade coarctada de sair à rua é minorada pela liberdade de ver televisão, ou jogar ao crapô. Do malo menos, até porque é uma restrição provisória, coisa de presidiário que sai em precária, mas ao contrário.

O homem, mais do que os pássaros, mesmo que não se aperceba, está sujeito a gaiolas que se encaixam umas nas outras ao jeito matrioska. Muitos trocam de bom grado a liberdade pela segurança confortável de gaiolas acolchoadas, mas, por mais livre que ame sê-lo, o homem é invariavelmente um prisioneiro, amargurado quando sente e o magoam as grades, feliz como todos os inconscientes quando as não sente. Pode até cantar como se fosse pássaro, saciado porque não lhe falta a alpista, e gozar a liberdade de coçar as penas com o prazer de quem tem bico.