quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

DOS ANIMAIS E DOS HOMENS


Nestes tempos abastardados onde os valores se dissolvem e os entendimentos se confundem, põe-se de moda o que é estultícia, riem-se os muitos do que não usam.

Foi assim que entrou no parece bem falar de animal como se fosse gente e de gente como se fosse peste. Esta moda, esta falácia agrava-se quando é propalada por recém-convertidos de má consciência. O dichote de mau gosto «quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães», atirado entre graçola e azedume, diz tudo.

Há, evidentemente, muita gente que gosta muito de animais, mesmo muito. Este gostar muito provoca e dilata a posse, perverte o próprio gostar. É o caso daqueles possuidores de bichos a que vestem gabardinas e põem chapéu. Ninguém lhes chama torturadores, mas chamo eu, que gostaria que tais actos fossem considerados maus tratos. São desvios, dir-se-á. Mas estes desvios e desequilíbrios provocam depois conversa fiada por parte de demagogos que esgrimem a falácia dos direitos dos animais, sem nos dizerem que deveres lhes correspondem. Coisa obtusa!

E não nos dizem como podem os ditos exercer s seus direitos!

Não maltratar os animais não é uma questão dos seus direitos, que os não podem exercer, não podem recusar o guizo, o boné, a gabardina; é uma questão de dignidade humana, de respeito pela vida, de rejeição da violência e da crueldade.

Como bem disse José Saramago, «um animal não pode defender-se; se te regozijas com a sua dor, desfrutas da tortura, gostas de ver como sofre esse animal … então não és um ser humano, és um monstro».

Para os que usam e abusam dos clichés e ideias prontas a usar que estão na moda, apenas porque estão na moda; que muito vociferam sobre os direitos dos animais, sem se perguntarem por que alguns não têm direito à vida, sendo assassinados e cortados em bife, só lhes desejo bom apetite na sua verde consciência.

Dizia a minha avó que a consciência era verde, veio um burro e comeu-a…

Histon, 20 DEZ 2018

THE THIRD EYE


Histon, 20 DEZ 2018

Muitos dos curiosos das coisas do oculto, que lêem sem espírito crítico livros excitantes da fancaria pseudo-esotérica, postos em moda, não se apercebem de quanto esses livros resultam de outros livros – uns bons e outros maus – mal assimilados e comercialmente reproduzidos. Estou a lembrar-me de um bestseller de 1956, que originalmente se intitulou The Third Eye, e recebeu em português o equívoco de Terceira Visão, sem que os falantes desta língua se interrogassem qual seria a segunda. Pouca exigência, como é evidente.

O autor, um inglês chamado Cyril Hoskins, que usava o pseudónimo Lobsang Rampa, nunca esteve no Tibete, mas escreveu uma vintena de livros a propósito que eram umas vezes cópia, outras continuações uns dos outros. Tudo o que neles conta que não seja disparate ou fantasia copiou ele da célebre obra autobiográfica do alpinista austríaco Heinrich Harrer, Sete Anos no Tibete, de que haveria mais tarde de ser realizado um filme. Este livro foi publicado, obviamente, antes do de Rampa (quatro anos antes) e, numa reedição de 1982 mereceu um prefácio e agradecimento do Dalai Lama. Mas tudo isto fica para outra altura, que o que interessa de momento é tratar do grande disparate contido no tal bestseller do Rampa.

Felizmente que os crentes naquela fantasia se limitaram a ler e sonhar, nada daquilo levando à prática, nomeadamente fazendo furos na testa, o que seria desastroso.

A nomenclatura portuguesa de Terceira Visão é um disparate e, como disparate, fica bem no disparate maior que é o livro. Apenas se justifica falarmos de duas visões: a física e a espiritual. A nomenclatura inglesa usada pelo Rampa de Terceiro Olho é um mau entendimento da parte dele. Tal nomenclatura – Terceiro Olho – usa-se no esoterismo metaforicamente, simbolicamente para designar visão interior, intuição, clarividência, realização espiritual. Nada disto se consegue com furos na testa. Os supostos órgãos físicos que medeiam estas capacidades são as glândulas hipófise e pineal. Já Descartes queria entender esta última como sede da alma. Mas que fique claro: o desenvolvimento psíquico – eis uma verdade de La Palice – só se consegue psiquicamente, não há mecânica que lhe valha.