Para o bem e para o mal, a civilização que é costume referir por ocidental foi moldada numa lógica de crenças que chamaríamos abraâmica, com génese, portanto, no Antigo Testamento.
Dos três cultos – mosaísmo, cristianismo e islamismo –, tornou-se preponderante o cristianismo que, com as suas novas escrituras, que todavia não revogavam as antigas, apenas derrogavam a lei do olho por olho, propunham a nova lei do perdão e do amor.
É evidente que esta intenção nunca foi institucionalmente conseguida, mas isso são outros contos.
O que queremos dizer é que se estabeleceu uma dada cultura, cuja génese está no culto a uma figura que pode até não ter tido existência histórica, mas apenas fundacional e mítica. Todavia, o que é certo é que ter existido ou não ter existido não altera a realidade do molde da nossa civilização.
A este propósito não temos uma posição assente, por isso vamos partir da hipótese mais aceite, que Jesus possa ter existido, mas não relevando demasiado o grande handy cap de que Dele se não conhece nem se lhe atribui qualquer escrito; quanto se saiba ou julgue saber, chegou-nos por interpostas pessoas, que não tinham nos seus propósitos fazer História ou jornalismo, apenas desejavam conquistar e doutrinar prosélitos.
É assim que, não havendo comprovações inequívocas e independentes, tudo o que se diga vale pelo crédito que se dê a quem o diga, não pelo peso de quaisquer factos ou provas. Não será boa prática olvidar que toda a autoridade tem de residir nos factos, por muito merecimento que se atribua a quem testemunha, analisa ou discorre.
Nas habituais especulações que se fazem, esgrimindo textos antigos, referidos ou não como sagrados, há demasiado alinhamento com os prós e os contras, chegando-se ao abuso de, sem se provar a existência de Jesus, se afirmar que era casado com Maria Madalena, sem que tal esteja escrito em qualquer texto fundador, esgrimindo-se o argumento totalmente estapafúrdio que teria de ser, porque no tempo e no lugar pareceria mal não ser, coroando a argumentação com uma falsidade, afirmando que o Evangelho de Filipe – um dos apócrifos – relata que Jesus beijou Maria Madalena na boca. Presumidamente, um beijo hollywoodesco, uma tontice New Age. Esse evangelho não diz tal coisa, diz que beijava mas não diz onde, podia ser na mão, na testa, não sabemos. Mesmo que fosse na boca, naqueles tempos como hoje, nem todos os que se beijam na boca se casam. Que o digam os russos. No referido achado arqueológico, a seguir à palavra beijou está um buraco no documento, que os cinéfilos quiseram preencher de acordo com os seus apetites.
Importa que esclareçamos aqui que não alinhamos nem com as hostes que só vêem virtudes nos Evangelhos Apócrifos, dizendo que esses sim é que são verdadeiros, nem das daqueles para quem só os canónicos contam. Aliás, devemos sublinhar que não será por serem canónicos ou não canónicos que mudamos de lentes ou do alinhamento dos passos; o que nos interessa é entender, é saber dos passos que os seguidores das diversas hostes dão e porquê. Esta é a razão de não levarmos a sério os que pegam nos apócrifos para atirar à cara dos alinhados com as ortodoxias, nem destes o uso dos canónicos para condenar toda a heresia.
Separe-se então o que é a análise dos textos, as diversas leituras, as plurais plausibilidades, os enquadramentos históricos; aquilate-se do que são factos, vestígios, indícios e não se confunda com lendas, nem com coisas em que se acredita ou quer acreditar.
É evidente que não podemos ignorar o que se diz nos muitos textos apologéticos do cristianismo, mas encará-los como indiscutíveis, e sobretudo querer impô-los como a palavra de Deus, pode assentar bem a um pregador de domingo à procura de obediência cega ou dízimo certo, não a quem quer compreender o mundo, nem a quem prefere a espiritualidade ao alinhamento com qualquer religião instituída.
Parafraseando o falecido Padre Carreira das Neves, é abusivo falar da palavra de Deus, porque Deus não tem boca. Aquilo que muitos designam por palavra de Deus é a palavra de homens que se julgaram divinamente inspirados e pregaram no tempo e nas circunstâncias vividas o que a sua razão e sentimento permitiram.
Os que imaginam um Deus com uma magnitude incomensurável não podem depois querer atribuir-lhe ser autor de iniquidades e pequenez saídas da boca de tanto profeta e redactor de escrituras.
É por razões circunstanciais e inspirações avulsas e díspares, acrescidas pelo passar do tempo, que muito corrompe e tudo transforma, que se tem uma grande pluralidade de evangelhos e um número assaz significativo de contradições insanáveis. E as contradições nada têm a ver com uns serem canónicos e os outros não. Todos eles têm contradições, e os que querem parecer não as ter, sendo esgrimidos como a palavra de Deus, são verdadeiras antologias de contradições. Todo o Novo Testamento o é.
Mas voltamos sempre ao princípio: os Evangelhos não são reportagens, não são História, não são ensaios académicos. São instrumentos apologéticos virados, não para a razão, mas para a emoção; não procuram provar, mas inspirar. Apesar disto, que só uma vontade de cegueira não tem em conta, aparecem os que, instalados em uma qualquer barricada ou púlpito, seguem a lógica dos tempos que correm da pseudo novidade e da excitação, descobrindo a pólvora todos os dias.
Consequentemente, diríamos que não é bom que se embarque nos vapores tipo New Age, sobretudo não é de dar qualquer crédito a evangelistas fabricados pelo marketing como, entre outros, o fabricante de dólares Dan Brown, que acha que os Evangelhos Apócrifos é que são o verdadeiro cristianismo, onde se dá um papel de relevo à mulher, enquanto os canónicos são falsos, machistas e misóginos…
Que conclusões aberrantes. Que ideias tão falsas. São afirmações sem qualquer suporte documental, ou meramente lógico.
Nas cartas dos apóstolos, especialmente nas de Paulo, isso pode encontrar-se, não especificamente nos Quatro Evangelhos. Nestes até se pode deduzir o contrário do que diz o Brown.
É bom que se tenha consciência de que não existem documentos originais de coisa alguma neste campo; todos os textos se constituíram em cópias uns dos outros. Isto tem a ver com o facto de que no princípio não havia uma igreja cristã, mas sim uma pluralidade de seitas judaicas chamadas cristãs, cada uma com o seu pregador a produzir as suas homilias.
Os «ses» que constantemente se avançam são carentes de contraprova. Não se olha para a História pelo que poderia ter sido, pelo «se», mas pelo que foi, ou se julga que foi.
Com os textos – quer apócrifos quer canónicos –, produzidos como dissemos por cópia de cópia, temos de contar com o velho vício de que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto; não nos basta ver o que foi escrito, mas como foi escrito. Há que ter em conta, também, que os textos canónicos são em geral mais antigos e mais cuidados na linguagem do que os apócrifos e que estes contêm muito mais contradições, e sobretudo fantasias, do que os outros.
Quanto ao feminismo de uns e o machismo de outros, é de ir às lágrimas. Canónicos e apócrifos são o que teriam de ser, isto é, reflectem a sociedade em que foram gerados, que era machista, evidentemente. Mas o que mais espanta é os defensores dos apócrifos acharem-nos feministas, quando se caracterizam precisamente por um supino machismo e misoginia que ultrapassa em muito tudo o que de Paulo se possa dizer, chegando ao ponto de ver a mulher como um mal necessário. Escrito está em muitos deles que a mulher só entrará no Reino dos Céus se se fizer homem.
O cristianismo é, muitos o dizem, em termos ideológicos o que Paulo quis e em termos políticos o que Constantino determinou. A mitologia fundadora resulta de um processo histórico e serve para que se sinta a religiosidade um pouco mais acima do que a barriga. Os «ses» não servem nem a barriga nem o peito.