Durante muitos séculos, os pregadores cristãos mais assanhados diminuíram quanto puderam a elasticidade das mentes dos prosélitos pela indução de sentimentos de pecado, culpa e remorso, mormente no respeitante à sexualidade, que para eles só seria aceitável como um mal menor no cumprimento do decreto dos céus crescei e multiplicai-vos.
Da castidade à abstinência faltou-lhes a necessária coerência de acusar Deus da enorme crueldade de ter dado aos humanos o que aos anjos não quis dar. Ora, esta falsa moral não tem qualquer suporta em dizeres atribuídos a Jesus, que não propôs qualquer moral sexual. A doutrina destes pregadores enraivecidos gerava-se, portanto e apenas, nos seus próprios preconceitos. Ao longo dos séculos foram acrescentando e solidificando a doutrina da forma que acharam mais conveniente para controlar mentes medrosas e ignaras.
No cristianismo esotérico, é bom que se ressalve, a castidade que também aí se propunha, não se prendia com qualquer virtude moral, mas com práticas herdadas do Oriente, visando a obtenção de poderes mágicos.
Para desespero dos pregadores e vergonha dos catequistas, surge um dia o que para eles era o Diabo em figura de gente, expelindo enxofre e tudo: Freud. Ele pega no grande abcesso que a desumana pregação enchera, aplica-lhe o bisturi e diz: vejam, não tem vurmo, apenas baba de pregadores perversos!
Erich From, na sua “L’Art d’Aimer”, encontrou – com alguma razão, convenhamos – sectarismo sexual nas exposições de Freud. Dizia ali que Freud «supunha ser a sexualidade per se masculina, fazendo-o desconhecer o que há de específico na sexualidade feminina».
Talvez possamos dizer que o célebre complexo de castração freudiano tem aspectos francamente caricaturais, mas não é isto que obsta ao grande impacto revolucionário do método e da doutrina do ilustre médico de Viena.
Por ironia do destino, foi a sua sexta filha, Anna Freud, a herdeira e rectificadora dos trabalhos do pai, iniciando e desenvolvendo uma área específica da psicanálise, a infantil.
Pôde a doutrina freudiana pôr fim a remorsos e sentimentos de culpa, no concernente à sexualidade? Pôde, para uma grande maioria, mas não pôde, obviamente, para quem esses sentimentos negativos são a ara das próprias crenças. É por isso que ainda hoje
A monja deplora
o orgasmo da noite
que de manhã chora.