quinta-feira, 22 de março de 2018

FALSA CULPA FALSO REMORSO


Durante muitos séculos, os pregadores cristãos mais assanhados diminuíram quanto puderam a elasticidade das mentes dos prosélitos pela indução de sentimentos de pecado, culpa e remorso, mormente no respeitante à sexualidade, que para eles só seria aceitável como um mal menor no cumprimento do decreto dos céus crescei e multiplicai-vos.

Da castidade à abstinência faltou-lhes a necessária coerência de acusar Deus da enorme crueldade de ter dado aos humanos o que aos anjos não quis dar. Ora, esta falsa moral não tem qualquer suporta em dizeres atribuídos a Jesus, que não propôs qualquer moral sexual. A doutrina destes pregadores enraivecidos gerava-se, portanto e apenas, nos seus próprios preconceitos. Ao longo dos séculos foram acrescentando e solidificando a doutrina da forma que acharam mais conveniente para controlar mentes medrosas e ignaras.

No cristianismo esotérico, é bom que se ressalve, a castidade que também aí se propunha, não se prendia com qualquer virtude moral, mas com práticas herdadas do Oriente, visando a obtenção de poderes mágicos.

Para desespero dos pregadores e vergonha dos catequistas, surge um dia o que para eles era o Diabo em figura de gente, expelindo enxofre e tudo: Freud. Ele pega no grande abcesso que a desumana pregação enchera, aplica-lhe o bisturi e diz: vejam, não tem vurmo, apenas baba de pregadores perversos!

Erich From, na sua “L’Art d’Aimer”, encontrou – com alguma razão, convenhamos – sectarismo sexual nas exposições de Freud. Dizia ali que Freud «supunha ser a sexualidade per se masculina, fazendo-o desconhecer o que há de específico na sexualidade feminina».

Talvez possamos dizer que o célebre complexo de castração freudiano tem aspectos francamente caricaturais, mas não é isto que obsta ao grande impacto revolucionário do método e da doutrina do ilustre médico de Viena.

Por ironia do destino, foi a sua sexta filha, Anna Freud, a herdeira e rectificadora dos trabalhos do pai, iniciando e desenvolvendo uma área específica da psicanálise, a infantil.

Pôde a doutrina freudiana pôr fim a remorsos e sentimentos de culpa, no concernente à sexualidade? Pôde, para uma grande maioria, mas não pôde, obviamente, para quem esses sentimentos negativos são a ara das próprias crenças. É por isso que ainda hoje

A monja deplora

o orgasmo da noite

que de manhã chora.

quarta-feira, 14 de março de 2018

PERTENCER SEM SER


Penso – e perdoem-me se estou enganado – que um grande número de reivindicados membros de organizações ditas iniciáticas, mormente rosacrucianas, maçónicas e martinistas, aderem a estas fraternidades equivocadamente. Pessoas – estou a generalizar – a quem move o exotismo, razões de vaidade mal dirigida e apetência por ganhos e poderes que não irão obter, salvo quando se integrem em organizações que se corromperam e deixaram de ser fraternais e iniciáticas para se transformarem em lóbis de entreajudas perversas e ilegítimas.

A regra fundamental da espiritualidade que preside às organizações iniciáticas autênticas é apelar aos membros que estejam no mundo mas não sejam do mundo.

Ora, não ser do mundo contradiz qualquer lobismo e estar no mundo exige contribuir para que ele seja melhor. Com ódio, não ficará melhor; com intolerância, não ficará melhor. Mas o facto é que as redes sociais, por exemplo, estão pejadas de manifestações de ódio e intolerância vindas de pessoas ditas espiritualistas e seguidoras de fraternidades. Estranha forma de ser fraternal.

O mundo melhora, com certeza, quando se leva a sério o juramento de servir a humanidade.

Servir a humanidade não é gostar dos nossos amigos, quando invariavelmente chamamos amigos aos que nos louvam e veneram. Não. A humanidade não é um jardim cheiinho de flores, dela fazem parte aqueles de que gostamos, aqueles que não gostamos e os que nos são indiferentes, todos credores da sua própria e inilidível dignidade, o que implica que até o pior dos criminosos seja respeitado. Tal respeito, como é evidente, não implica voltar a cara para o outro lado perante o erro, exige o nosso empenho em curar e ensinar. Tudo o mais será servir e o seu contrário, servir-se, é uma indignidade.

Reparem que até os que se exibem indignados não fazem mais do que servir-se, mostrando à cidade e ao mundo o quanto são excelsos. Vejam aqui o que se atribui a Jesus, nos Evangelhos, quando se refere aos fariseus, que querem que todos vejam o quanto são esmoleres.

Quem não entender isto, caso tenha avental, faça o favor de o pôr e ir lavar a loiça.