segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O ACIDENTADO OCIDENTE

Vendas Novas 5 FEV 2018

Nas sociedades do ocidente actual há palavras de envenenamento certo, como competitividade, transparência, competência e outras, mentalmente estruturantes, e há palavras tão risíveis que quase todos evitam, como patriotismo, honra, sagrado, santidade e similares. Gente instruída pelo modo de produção do ensanduichamento massivo tem muito cuidado com estas coisas. Graça tem – sobretudo se se diz que uma mulher é uma pecadora – a forma como se saboreia com agrado a palavra pecado, que se tornou sinónimo de festa, de liberdade.

Olhando para mim, diria que os santos nunca me convenceram nem os pecadores me arrepiaram. Não se é santo por decreto, e pecador também não. Se o povo o diz, mais desconfiado fico.

Andava eu no chamado Ciclo Preparatório e encontrei, na biblioteca da escola, um livro que, na altura, me marcou profundamente. Fiquei tão apaixonado por ele que, fazendo esticar os tostões, tive de adquirir um exemplar. Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio, um homem do Norte, enterrado como professor «Em Portalegre, cidade /Do Alto Alentejo, cercada /De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros…»

Li tantas vezes esse livro que cheguei a tê-lo de cor. Depois, como que o esqueci, mas o certo é que deixei de distinguir os santos dos pecadores. Estas coisas do subconsciente são muito perigosas.

Agostinho da Silva, comentando dizeres de Le Carré, a seu respeito, na novela Casa da Rússia, enaltecendo o seu aspecto de santo e de profeta bíblico, disse: é porque ele me viu de um certo ângulo, se me olhasse de um outro veria diferente.

É isso. O olhar, o ângulo, a perspectiva. Ao fim e ao cabo, a nossa projecção no exterior para ter dele a medida que nos sirva.

Muhammad terá dito em um dos seus hadîths que a tinta do sábio é mais sagrada do que a sangue do mártir, todavia, para as grandes massas, sempre o sangue foi mais apelativo do que o conhecimento, mormente na completude dos seus três graus, de que fala o nosso amigo José Flórido: saber, compreender e integrar.

Cada um de nós, que não se limite a comer, beber e procriar, é um campo de batalha de duas forças antagónicas, que podemos chamar o anjo e o diabo – o anjo que integra e o diabo que divide – ou, se se preferir outra nomenclatura, diremos os demónios do bem e os demónios do mal. Somos, afinal, como alguém disse, uma guerra civil. Quem vencerá? Aquele lado que privilegiarmos em armas e alimento.

A forma de entender a santidade no Ocidente sempre foi um enorme pecado. Não se entendeu na sua plenitude o gnoma sufi de vencer a carne sem perder a humanidade. Quando os monges, na sua perversa santidade, dilaceravam a carne para a vencer, não a venciam, apenas a ensinavam a tirar prazer da dor. O mesmo fazem os pecadores nos festins de sexo sadomasoquista. Santos e pecadores, as faces inseparáveis da mesma moeda.

Hoje, tão cheios de ciência que estamos, podemos ler no ADN a nossa herança genética. Está lá escrito como caçar mamutes (Carl Sagan), mas não há mamutes para caçar…

Ou seja, o dever ser do homem não é submeter-se, é vencer a sua guerra interna e arrumar na estante das recordações os Poemas de Deus e do Diabo.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

DESCONFORMIDADES

Vendas Novas, 4 FEV 2018

Um criacionista não explica, e um darwinista muito menos, por que os machos têm mamilos, excrescências completamente inúteis. Dirão coisas, mas é como se não dissessem, porque qualquer pensamento, qualquer entendimento condicionado por um modelo fica sempre limitado pelos seus parâmetros. Habitualmente, tentarão encaixar os factos no modelo em que acreditam, mesmo que não caibam.

Michael Shermer, em um dos seus escritos – ele que é um neodarwinista – avisou-nos sabiamente que às más perguntas sucedem sempre más respostas. Segundo ele, a pergunta que se deve fazer é por que as mulheres têm mamilos, sendo a resposta evidente e inegável é que as fêmeas de mamífero têm mamilos para poderem alimentar as crias.

Aquelas excrescências nos machos devem-se ao facto de o molde arquitectónico para cada espécie ser apenas um; a natureza não perde tempo com dois, quando resolve o problema com um. Azar dos machos, que ficam com as marcas do molde.

Podemos enquadrar tudo isto na ideia de que o princípio básico da vida é feminino.