quinta-feira, 27 de abril de 2017

DO RUIM DEFUNTO

Vendas Novas, 27 de Abril de 2017

Apesar de eu não ir tão longe quanto o teólogo Karl Rashke, que classifica o movimento New Age como a SIDA espiritual do século XX, muitos amigos acusam-me de ser excessivo nas críticas que faço à coisa; acham alguns que isso já lá vai, estamos até no século XXI, que não vale a pena bater mais no moribundo…

Ora, não concordo com o teólogo nem com os críticos das minhas críticas. Com o primeiro, porque não se trata de espiritualidade, mas de conforto para as frustrações, de ideologia enganadora e desviante; dos meus críticos, porque lhes quero recordar que os moribundos são muito perigosos, e que até os cadáveres espalham pestilências.

Se o New Age tivesse nascido reivindicando-se como religião, não teria tido o sucesso que teve, seria apenas mais uma “seita”, mas tendo surgido depois do “make love not war”, com flores no cabelo e tudo, aproveitou os ventos de então, constituindo-se como um melting-pot, ou melhor, um albergue espanhol onde tudo cabia, numa promiscuidade absoluta: uma pitada de budismo, três colheres de espiritismo, pirâmides, calendários maias, tantra (urbano e erótico), cristais e ioga; uma pitada de rosacrucianismo, muitos gurus, muitas túnicas, muito incenso, chás e coisinhas naturalíssimas; Blavatsky para aqui, Alice Bailey para acolá, muita coisa com aparência de ciência e até uns charros à socapa, para justificar Castañeda e o seu feiticeiro D. Juan.

E pasme-se: ostentação de Krishnamurti como «cá dos nossos». Se calhar foi por isto que o grande místico se foi embora mais cedo do que se esperava. Ele que era a perfeita antítese das exteriorizações folclóricas.

O New Age, com a sua falsa espiritualidade pronta a usar, é um produto tóxico, envenena os que têm fome de alimentos sãos para o espírito, da mesma forma que o fast food faz, para o corpo, com a gula apressada das bocas pouco educadas. Obesos uns e outros, e por isso doentes, porque os alimentos que usaram para o corpo e para o espírito não nutrem, fazem apenas inchar, são junk food, comida lixo.

As “simplificações” dos conceitos, dos valores e dos caminhos de vida dos arautos desta ideologia não passam de verborreia, de intelectualismo primário, de superficialidade e degenerescência. São um produto da sociedade mercantilista e da ilusão do consome e sê feliz.

Causa-me um certo espanto como tudo isto logrou contaminar também aqueles de quem tal não se esperaria, ou seja, os que navegam nas águas das escolas esotéricas acreditadas. Aliás, muitos destes grupos – eles próprios – foram contaminados até ao âmago.

Compreender-se-ia, mesmo que se lastimasse, que as pessoas descontentes e insatisfeitas com as velhas religiões vissem na novidade, iludidamente, a luz que ela não tinha nem poderia ter, porque os olhos tendem a inventar o que querem ver; compreender-se-ia também que os muito curiosos e mal informados igualmente se iludissem, mas é muito difícil compreender o engano daqueles que tinham acesso a propostas sérias e lhes voltaram as costas. Estes, penso eu, cederam à lei do menor esforço – como se ela se aplicasse ao espírito – e iludiram-se com os cantos de sereia; a curiosidade foi-lhes mais forte do que a serenidade e o bom-senso. Não levaram sequer em conta que é a curiosidade que mata o rato.

Veja-se como hoje em dia se fala, como se de cátedra fosse, de “coisa natural”, de evolução, de quanta, de iniciação, tudo num pronto a dizer, num pronto a pensar, num pronto a engolir sem mastigar.

Pensar, por exemplo, que o homem evoluirá necessariamente, porque os animais também evoluem, sem nenhum esforço – coisas de Aquário, de portais cómicos e crendices quejandas – é não entender, antes de mais, esses mesmos conceitos esgrimidos. Depois, é não reparar que a natureza, ao longo dos milénios, a seu bel-prazer, foi prescindindo de inúmeras espécies animais e vegetais e transformando as pedras, sem lhes perguntar se estavam de acordo. Preste-se bem atenção que não foram só os dinossáurios que foram extintos; pode mesmo ter existido outra ou outras humanidades precedentes. A natureza não se rege pela moral que os homens vão inventando. É por isso que é natura, não é cultura. Para o imo da natureza, não valemos mais do que os dinossáurios ou o vírus do sarampo.

Abdul Cadre

A natureza, se lhe fosse lei o livre-arbítrio, preferiria talvez aquilo que não somos, um homem natural, obediente aos seus princípios, e não o homem dividido que somos: natura vs. cultura. Em nome da Natureza, querem os naturistas pensar e decidir e nem sempre acertam nos propósitos; sem preocupações com a natureza, agem os homens que pensam poder devorá-la, sem se lembrarem que o que neles é natureza voltará ao sítio de onde veio e o que for “cultureza” será dado ao espaço para consumo e ao tempo para esquecimento.

Ligar a iniciação à natureza é não perceber que a iniciação é uma “violação”, uma excepção, não é a norma, mas o transcender da norma.

Pregar processos de consciência através de posturas inconscientes, conquistar a alma acendendo velas e queimando incenso não é de modo algum melhor do que aquilo que tantos repudiam, por ser rotina, há 2000 anos sem que a humanidade se reintegre nas leis do espírito.

O espírito age no sentido de tornar a matéria inteligente, e é condição da matéria contrariar isso. A ideologia new age é um agente do propósito da matéria.

As leis da inércia aplicam-se aqui, e não apenas à mecânica. O que se move não quer parar e o que está parado não se quer mover. O espírito tem a inércia do movimento, a matéria tem a inércia da imobilidade. O homem de carne e osso evolui de acordo com as leis da carne e do ambiente onde a carne vive; se houver um cataclismo nuclear, pode ser que lhe nasça um olho na testa. O homem cuja carne se submete aos apelos e acções do espírito evolui no sentido da ampliação da consciência, mas seria um absurdo pensar-se que o homem pode ser consciente inconscientemente.

Nós não somos um produto natural, somos uma conquista cultural sobre um suporte natural, que usamos como agentes privilegiados de uma inteligência maior. Ter consciência desta inteligência não surge espontaneamente, exige esforço, persistência e focalização no não lugar onde os sentidos da carne se aquietam e o silêncio absorve o tempo, o espaço e o entendimento compartimentado.

Da nossa dualidade decorrerá dizer-se que o peso da matéria é um obstáculo que poderemos ou não ultrapassar no sentido da nossa evolução interior, já que da exterior se encarrega a natureza. Mas isto não pode envolver qualquer menosprezo pela matéria, porque o nosso corpo é a catedral onde oficiamos as razões do espírito, até que a matéria corte com a inércia da imobilidade.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

DESMANCHA-PRAZERES

Histon, 14 de Abril de 2017

Tenho muitos conhecidos e alguns amigos a que chamo voadores, isto é, que julgam pairar acima dos mundanismos dos simples mortais.

Quando me falam de humildade, de desapego de transcender o ego e outras bizarrias congéneres de evasão espiritual, resultantes da muito desgastada, mas ainda prejudicial pandemia do new age, ou me dá para deplorar ou faço orelhas moucas, que é o que mais convém nestas coisas.

Ora vejamos: a humildade raramente é o que se presume que seja, antes é, quase sempre, uma vaidade que se veste de burel para enganar os incautos. Às vezes esta mimetização é tão grave que chega a enganar o enganador.

O desapego, conforme se vê por aí defendido e jurado, é coisa bem pior, se assim podemos dizer; trata-se de uma forma de egoísmo, de apatia, desamor, de falta de compaixão. É louvável, evidentemente, que se queira transcender a carne, mas tal não implica que se perca a humanidade. Não nos enganemos: nada que seja humano nos pode ser indiferente. Os humanos são matéria e são espírito. Quem tenha dito aos «desapegados» que a matéria é menos sagrada do que o espírito mentiu-lhes. Se acreditam em tal mentira, então estão apegados a algo de ruim: a mentira.

Quanto ao ego, diabolizado por tantos escapistas, penso que muito do que se diz e barafusta acaba numa mistura insalubre de ilusão e ignorância. O ego é algo de precioso no ser humano, sem esse plinto para a ginástica da auto-realização, não seríamos humanos, mas pedras.

Os que julgam pairar acima disto tudo, talvez quisessem ser projector para nos iluminar no sarau dos saltos de plinto, mas infelizmente para eles, ou a lâmpada está fundida ou a corrente eléctrica não chega lá.

ABDUL CADRE